TerrAlimenta 2.0 quer criar uma bacia alimentar sustentável no Baixo Alentejo
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Projeto coordenado pela ESDIME pretende aproximar produtores locais, cantinas escolares e consumidores no Baixo Alentejo.

O projeto TerrAlimenta 2.0 quer criar uma bacia alimentar sustentável no Baixo Alentejo, aproximando produtores locais, municípios, escolas, entidades do setor social, agentes de desenvolvimento local e consumidores.
Coordenada pela ESDIME, a iniciativa tem como objetivo usar a alimentação como ferramenta de coesão, colaboração e sustentabilidade, através de uma ação coletiva regional que pretende reforçar a ligação entre quem produz, quem distribui e quem consome no território.
Em entrevista ao jornal ODigital.pt, Rívea Borges, coordenadora do projeto, explicou que o TerrAlimenta 2.0 pretende “ligar desde o produtor até ao consumidor”, criando um sistema alimentar local que valorize os recursos da região e promova circuitos de proximidade.
“O projeto visa promover saúde, melhorar a alimentação que o consumidor final recebe, promover o consumo de proximidade e permitir que o consumidor consiga adquirir produtos da região, produzidos de uma forma mais sustentável”, afirmou.
O que é uma bacia alimentar?
Um dos conceitos centrais do projeto é o de bacia alimentar sustentável. Rívea Borges explica que a ideia parte do conceito de bacia hidrográfica, aplicado ao sistema alimentar.
Segundo a coordenadora, trata-se de olhar para o território como um espaço onde se organizam os diferentes agentes envolvidos no percurso do alimento, desde a produção até ao consumo.
“Seria todo o território que reúne os diferentes atores que compõem a produção, desde a produção até ao consumo do alimento”, explicou, referindo que esta abordagem inclui a forma como o alimento é produzido, transportado, processado e consumido.
Na prática, o projeto pretende perceber como os produtos locais podem chegar de forma mais regular aos consumidores da região, em especial às cantinas escolares, que surgem como um dos primeiros focos de intervenção.
Cantinas escolares no centro da intervenção
As escolas terão um papel central no TerrAlimenta 2.0. De acordo com Rívea Borges, “o primeiro consumidor que o projeto foca são as cantinas escolares”.
A intenção é trabalhar a alimentação servida nas escolas, reduzir desperdício, valorizar produtos locais e criar condições para que a contratação pública possa integrar mais produção da região.
A coordenadora explica que esta ligação pode também dar maior segurança aos produtores locais, que enfrentam oscilações no mercado.
“Quando conversamos com os produtores daqui da região, eles têm uma oscilação muito grande do mercado consumidor. É criar uma constância de consumo para que esse produtor tenha segurança de que vai produzir e vai encontrar mercado”, referiu.
Três pilotos no Baixo Alentejo
O TerrAlimenta 2.0 terá três projetos-piloto, liderados pelos municípios de Mértola, Castro Verde e Ourique. A coordenadora esclarece, no entanto, que cada piloto não ficará limitado ao concelho que o lidera, podendo ser trabalhado nos três territórios.
A escolha destes municípios resulta da experiência já identificada numa fase anterior do projeto, que permitiu fazer um diagnóstico sobre práticas, recursos e estruturas existentes no Baixo Alentejo.
Segundo Rívea Borges, o projeto tem uma duração prevista de três anos. O primeiro ano está a ser dedicado à preparação das atividades, estando previsto que os pilotos estejam ativos no território em janeiro de 2027.
Mértola vai trabalhar o desperdício alimentar
O piloto liderado por Mértola será dedicado ao desperdício alimentar nas cantinas escolares.
A intervenção pretende monitorizar o que é desperdiçado nas escolas, perceber que alimentos não são consumidos pelas crianças e identificar dificuldades na preparação das refeições.
“O piloto vai medir, de certa forma monitorizar, o que está a ser desperdiçado nas cantinas escolares, o que as crianças não comem e o que as cozinheiras não conseguem processar”, explicou Rívea Borges.
Castro Verde foca-se na logística da carne local
O objetivo passa por fazer um diagnóstico sobre a forma como a carne produzida no Baixo Alentejo chega ao consumidor e identificar soluções para melhorar essa cadeia.
A Associação de Agricultores do Campo Branco integra o projeto, trazendo experiência ligada à produção de carne local e a espécies autóctones.
Ourique vai mapear locais com produtos locais
O piloto liderado por Ourique terá como base a criação de um sistema de sinalética para identificar locais que utilizam ou disponibilizam produtos locais.
A ideia passa por mapear cantinas, restaurantes e outros espaços onde os consumidores possam encontrar alimentos provenientes de produtores da região.
Rívea Borges admite que este sistema possa vir a ter uma componente georreferenciada, com recurso a uma plataforma digital onde seja possível consultar esses locais. O projeto poderá também identificar restaurantes com receitas tradicionais do Baixo Alentejo e espaços que utilizem produtos associados a critérios de sustentabilidade.
Santana de Cambas será Aldeia de Inovação
Além dos três pilotos, o TerrAlimenta 2.0 prevê a criação de uma Aldeia de Inovação em Santana de Cambas, no concelho de Mértola.
Segundo Rívea Borges, a localidade já desenvolveu trabalho na ligação entre alimentação escolar e produção local, incluindo hortas e hortas-floresta nas escolas.
“As escolas têm hortas e hortas-floresta que produzem verduras, frutas e legumes. Boa parte do que as crianças consomem é produzida na própria escola”, afirmou.
A intenção é transformar Santana de Cambas numa referência para outros territórios, mostrando como uma aldeia pode organizar práticas de produção local, contratação pública, envolvimento das famílias, participação dos alunos e capacitação da comunidade.
“É uma referência de como fazer o território virar autossustentável”, sublinhou a coordenadora.
Projeto quer envolver mais municípios
Apesar de arrancar com pilotos em Mértola, Castro Verde e Ourique, o TerrAlimenta 2.0 pretende envolver outros municípios do Baixo Alentejo.
A componente de capacitação será uma das formas de alargar a iniciativa, permitindo que outros territórios possam conhecer e aplicar práticas associadas à alimentação local, à redução do desperdício, à contratação pública e à ligação entre produtores e consumidores.
Para Rívea Borges, o projeto pode contribuir para reforçar a cooperação regional.
“É importante ressaltar essa abertura que o projeto tem para envolver outros municípios e que seria importante o Baixo Alentejo entender essa coesão e essa colaboração que se pode criar a partir da união dos municípios da região”, concluiu.




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