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Cadeias de abastecimento alimentar sob pressão: “A capacidade de resposta do setor não é ilimitada”

  • 4 hours ago
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A 8.ª Conferência para a Competitividade da FIPA reuniu Governo, empresas e especialistas em torno dos desafios que a instabilidade geopolítica coloca à indústria agroalimentar portuguesa. Pedro Queiroz, diretor-geral da federação, explicou à Supply Chain Magazine o que está em jogo.



A instabilidade geopolítica deixou de ser um risco conjuntural para se tornar uma condição permanente de operação. Quem gere cadeias de abastecimento alimentar já não planeia apenas para a eventualidade de uma disrupção; planeia sabendo que ela pode ocorrer a qualquer momento, sem aviso e com impactos difíceis de antecipar.


Foi com este pano de fundo que a FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares reuniu, a 19 de junho, representantes do Governo, líderes empresariais e especialistas do setor na sua 8.ª Conferência para a Competitividade, subordinada ao tema “O valor acrescentado da indústria agroalimentar”.


Após este encontro em que a competitividade, a inovação, a sustentabilidade, a internacionalização e a resiliência das cadeias de abastecimento estiveram no centro do debate, Pedro Queiroz, diretor-geral da FIPA, aprofundou alguns aspetos essenciais.


Para o diretor-geral da FIPA, o impacto da pressão geopolítica sobre as cadeias de abastecimento alimentar já não é uma ameaça futura. É o quotidiano das empresas associadas.


“Na prática, as empresas enfrentam prazos de entrega cada vez mais imprevisíveis, uma elevada volatilidade nos preços das matérias-primas e uma crescente necessidade de reforçar stocks, diversificar fornecedores e investir em cadeias de abastecimento mais resilientes”, afirma. “Estas exigências implicam um aumento dos custos de produção e colocam uma pressão acrescida sobre a competitividade das empresas, num contexto em que as margens de rentabilidade já são, em muitos casos, bastante reduzidas.”


O responsável reconhece que o setor tem demonstrado uma capacidade de adaptação assinalável. Durante a pandemia, nas sucessivas disrupções logísticas, na crise energética e no período de inflação elevada, a indústria agroalimentar portuguesa manteve o abastecimento regular à população. Mas há um limite que não pode ser ignorado: “A capacidade de resposta do setor não é ilimitada.”


É aqui que Pedro Queiroz aponta para o papel das políticas públicas. Para a FIPA, é indispensável reduzir custos de contexto, simplificar procedimentos administrativos, garantir um quadro regulatório estável e previsível, avançar com medidas de justiça fiscal, nomeadamente através da aplicação da taxa reduzida de IVA aos produtos alimentares, e reforçar os incentivos à inovação, à eficiência energética, à digitalização e à diversificação das cadeias de abastecimento.


A mensagem ao Governo é clara: reconhecer o carácter estratégico da indústria agroalimentar não pode ficar apenas no discurso. “Reforçar a competitividade da indústria agroalimentar é muito mais do que uma questão económica. É uma condição essencial para garantir a resiliência das cadeias de abastecimento, preservar a capacidade produtiva nacional, assegurar o abastecimento regular de alimentos à população e fortalecer a segurança alimentar de Portugal.”



PME: o elo mais exposto da cadeia

A segunda grande tensão colocada em cima da mesa prende-se com o equilíbrio entre as exigências crescentes de sustentabilidade e inovação e a realidade financeira e operacional das pequenas e médias empresas, que representam a maioria do tecido empresarial do setor.


Para Pedro Queiroz, a questão já não é saber se as PME têm de acompanhar esta transformação. “Têm, inevitavelmente, de o fazer. O verdadeiro desafio consiste em garantir que dispõem das condições necessárias para concretizar essa transição de forma sustentável e competitiva.”


O risco, alerta, é concreto: se o ritmo das exigências regulatórias, ambientais e administrativas continuar a aumentar sem mecanismos de apoio proporcionais, poderá acentuar-se o fosso entre grandes grupos, com maior capacidade para absorver os custos da transição, e PME, que dispõem de menos recursos financeiros, humanos e técnicos.


A dimensão de supply chain deste debate é relevante. As PME são, muitas vezes, parte essencial da diversidade, capilaridade e capacidade de resposta das cadeias de abastecimento alimentar. Enfraquecer esta base empresarial pode reduzir a flexibilidade do setor e comprometer a sua capacidade de adaptação a choques externos.


A posição da FIPA é que a transição ecológica e digital só será bem-sucedida se assentar num equilíbrio entre as dimensões ambiental, económica e social. “A sustentabilidade só será verdadeiramente bem-sucedida se assentar num equilíbrio entre as dimensões ambiental, económica e social, garantindo que a transição é não apenas ambientalmente responsável, mas também economicamente viável, socialmente justa e acessível a todas as empresas, independentemente da sua dimensão”, afirma Pedro Queiroz.


A 8.ª Conferência para a Competitividade da FIPA reuniu um conjunto diversificado de entidades, incluindo o GPP, a CIP, a PLMJ, a AICEP, o Banco Português de Fomento, a Nestlé Portugal, a Portugal Foods e a Sociedade Ponto Verde, refletindo a transversalidade dos desafios em discussão: a pressão sobre as cadeias de abastecimento alimentar não afeta apenas a indústria, mas toda a fileira, da produção ao financiamento, da regulação à distribuição.


A conclusão que atravessou o debate é também uma das que mais tem marcado a agenda da supply chain nos últimos anos: a resiliência não se constrói no momento da crise. Constrói-se antes, com investimento, diversificação, digitalização, capacidade produtiva e um enquadramento regulatório que não penalize quem quer transformar-se. Portugal tem uma indústria agroalimentar com provas dadas de adaptação. A questão, agora, é saber se estão a ser criadas as condições para que continue a fazê-lo a tempo.



 
 
 

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