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Da reciclagem ao prato: garrafas de plástico podem ser transformadas em bolachas com sabor a baunilha

  • 17 hours ago
  • 3 min read

Garrafas de plástico usadas e resíduos agrícolas podem vir a ter um destino difícil de imaginar: serem transformados em bolachas comestíveis.




Garrafas de plástico usadas e resíduos agrícolas podem vir a ter um destino difícil de imaginar: serem transformados em bolachas comestíveis. Uma equipa da Southern Illinois University Carbondale desenvolveu um processo que recorre a leveduras geneticamente modificadas para converter estes desperdícios em ingredientes alimentares, incluindo proteínas, gorduras e até aroma de baunilha.


As bolachas já foram produzidas e receberam o nome de µBites, ou “microbites”, mas há um pormenor importante: os próprios investigadores ainda não as provaram. A equipa aguarda autorização institucional para avançar com essa fase da experiência.



O projeto, descrito pela New Scientist, procura explorar uma possível ligação entre dois grandes problemas globais: a acumulação de resíduos de plástico e a escassez de alimentos.


De uma garrafa usada a ingredientes para uma bolacha


Sandhya Jayasekara e os restantes investigadores começam por utilizar garrafas de plástico usadas, recolhidas num supermercado, às quais juntam caules e folhas de plantas de milho-doce que seriam descartados.



Estes materiais são submetidos a um processo chamado dissolução hidrotérmica oxidativa. Através do calor, o plástico e os resíduos vegetais são decompostos em componentes suficientemente simples para poderem ser utilizados por microrganismos.


É então que entram em cena leveduras geneticamente modificadas através da tecnologia de edição genética CRISPR.


As alterações permitem que as leveduras convertam os componentes obtidos a partir dos resíduos numa variedade de substâncias úteis para produzir alimentos, entre as quais proteínas, gorduras e ácidos.


O processo permite ainda obter aroma de baunilha e betacaroteno, substância que o organismo humano consegue converter em vitamina A.



Impressora 3D dá forma às µBites



Depois da intervenção das leveduras, são adicionados à mistura fibra, amido e adoçante. A pasta resultante é posteriormente colocada numa impressora 3D, através da qual pode assumir diferentes formatos.


O produto final são as µBites, as bolachas experimentais que a equipa vai apresentar na sexta-feira, durante a reunião de outono da American Chemical Society, em Chicago.


Apesar de ainda não terem recebido autorização da universidade para provar o produto, os investigadores mostram-se confiantes quanto à segurança e ao sabor das bolachas.


“Penso que tem um aroma agradável e apelativo”, afirmou Sandhya Jayasekara à New Scientist. A investigadora acredita também que o sabor será agradável, embora reconheça que ninguém da equipa tenha ainda experimentado as bolachas. Pelo cheiro, acrescentou, parecem “uma bolacha verdadeira”.




Transformar plástico recolhido dos oceanos em comida ainda está longe



A possibilidade de converter resíduos de plástico em alimentos não significa, contudo, que garrafas retiradas de aterros ou dos oceanos possam começar em breve a ser transformadas em bolachas.


Lahiru Jayakody, também investigador da Southern Illinois University Carbondale e membro da equipa, estima que serão necessários mais 20 anos de investigação antes de resíduos plásticos recolhidos desses locais poderem ser transformados em alimentos seguros e apetecíveis.


Ainda assim, o investigador espera que o processo desenvolvido pela equipa possa inspirar novas formas de enfrentar o problema dos resíduos plásticos e contribuir para uma “mudança social” na maneira como este tipo de desperdício é encarado.



“Não vamos comer bolachas de plástico”


Nem todos estão convencidos de que esta tecnologia tenha potencial para contribuir de forma significativa para resolver a crise mundial do plástico.


Jason Hallett, do Imperial College London, considera a investigação divertida e interessante, mas acredita que dificilmente terá aplicação prática em grande escala.


O investigador recorda que são produzidas anualmente cerca de 400 milhões de toneladas de resíduos plásticos em todo o mundo, uma quantidade impossível de absorver através da produção de alimentos deste género.


“Não vamos transformar tudo em bolachas”, afirmou Hallett à New Scientist, defendendo que esta não constitui uma solução para a crise dos resíduos plásticos e que não existe uma forma realista de comercializar o processo em escala suficiente.


“Não vamos andar a comer bolachas de plástico”, resumiu.



Convencer consumidores pode ser outro problema


Mesmo que os obstáculos tecnológicos sejam ultrapassados, as µBites poderão enfrentar uma barreira adicional: convencer as pessoas a comer um produto que teve plástico como matéria-prima.


A ideia surge num momento de crescente preocupação com a presença de microplásticos no ambiente, nos alimentos e até no cérebro humano. A isso junta-se a resistência existente em relação a alimentos produzidos através de engenharia genética, outra tecnologia essencial neste processo.


A combinação destes dois fatores poderá limitar o interesse dos consumidores e, consequentemente, dos fabricantes.


Para Hallett, a melhor resposta à crise do plástico continua a passar pela reciclagem através de processos já conhecidos. O problema, sustenta, está nas dificuldades logísticas de recolher resíduos dispersos e no baixo preço do plástico virgem, fatores que impedem que a reciclagem seja realizada à escala necessária.







 
 
 

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