Como evitar o desperdício alimentar? Testámos uma aplicação e falámos com uma especialista
Quantas refeições acabam diariamente no lixo quando ainda podiam ser aproveitadas? Passei uma semana a experimentar a Too Good To Go, uma aplicação móvel que pretende combater o desperdício alimentar, e falei com Cláudia Ganhão, especialista em Organização Pessoal.

No âmbito do Dia Internacional da Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar, que se assinala esta terça-feira, 29 de setembro, passei uma semana a testar uma aplicação que promete dar uma segunda oportunidade aos alimentos: a Too Good To Go. Recebi um vale de 30 euros para esse efeito, descarreguei a aplicação e adicionei a minha localização. Logo a seguir, aparecem automaticamente os restaurantes aderentes que disponibilizam "Suprise Bags" naquele dia ou no dia seguinte. Um detalhe importante a reter antes de avançarmos: o objetivo da aplicação é aproveitar comida que sobrou no final do dia, que de outra forma poderia acabar no lixo, e que aqui é vendida a um preço mais baixo. Assim, não sabemos o que está dentro da caixa até ao momento da entrega e é preciso reservar e recolher dentro do horário indicado.
Usei a aplicação pela primeira vez na segunda-feira passada, 21 de setembro, à procura de uma opção para almoço. Naquele momento estava na redação da SÁBADO e a oferta de restauração nesta zona é bastante reduzida. Em alternativa, decidi adiar a recolha para a hora do jantar e escolhi a Jezzus Pizzaria & Padaria para esse efeito. Antes de descrever o conteúdo da embalagem, importa fazer uma ressalva: embora não saibamos o que está dentro da "Surprise Bag", a aplicação diz-nos se se trata de uma caixa de “pastelaria” ou de uma "refeição". Não tomei atenção a esse detalhe e quando fiz a recolha, por volta das 19h45, percebi que a caixa continha pão - que decidi fatiar e congelar para consumir mais tarde - dois folhados e um bolo caracol, que no total custaram €5,49.
No dia seguinte, reservei uma "suprise bag" da Madam Bo (restaurante asiático) para recolher por volta das 21h, mas acabei por cancelar por falta de tempo, e só voltei a usar a aplicação no domingo. Nesse dia, reservei uma pizza média numa loja da Domino's, que recolhi por volta das 18h e que serviu de lanche ajantarado para mim e para a minha avó. A pizza gulosa custou €5,99 e vinha decorada com frango temperado, queijo e um molho que parecia ter natas. Para referência, uma pizza média comprada diretamente na loja custa €11,95. Mais tarde, ainda no domingo, recolhi uma embalagem que tinha reservado num supermercado Auchan perto da minha casa. Desta vez, a experiência não foi a melhor: apesar de ter gasto apenas €3,99 num queijo, num pacote de rúcula, biscoitos, uma tarte de coco e duas mousses de chocolate, o prazo de validade de um dos alimentos terminava naquele mesmo dia. No final, sobraram ainda €13,53 para futuras refeições.
Portugal desperdiça cerca de 58 quilos de comida por segundo
Em Portugal, as estatísticas sobre o desperdício alimentar ainda são preocupantes. No contexto europeu, o nosso País ocupa o quarto lugar na tabela de países que mais desperdiçam alimentos e só fica atrás do Chipre, Dinamarca e Grécia, diz-nos um comunicado da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), publicado este ano. Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2024, revelam que cada português desperdiça em média cerca de 161,2 quilos de alimentos por ano, o que equivale a cerca de 58 quilos de comida deitada fora por segundo, que custam cerca de 10,4 milhões de euros por dia a Portugal - de acordo com uma estimativa feita pela Too Good To Go. Um comunicado enviado pela equipa de comunicação diz-nos que a aplicação "já ajudou a salvar mais de 8,2 milhões de Surprise Bags, tendo gerado uma poupança superior a 60 milhões de euros para os seus utilizadores, evitando a emissão de 22.000 toneladas de CO2 e o desperdício de 6 mil milhões de litros de água (o suficiente para encher 2.600 piscinas olímpicas)" desde que chegou a Portugal.
À escala mundial, comunicado da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) revela que cada pessoa desperdiça "uma média de 74 quilos de alimentos por ano", o que resulta "em 570 milhões de toneladas de desperdício alimentar." "As famílias são responsáveis por mais de metade do desperdício alimentar na UE (53%) e 9% do desperdício (12 quilos por habitante) provém da produção primária de alimentos, como a agricultura, e 18% (23 quilos por habitante) vem do setor de processamento e fabrico", pode ler-se no site do Parlamento Europeu. Para ajudar a colmatar este problema, Cláudia Ganhão, especialista em Organização Pessoal Minimalista, deixa algumas dicas: "Uma das coisas que sugiro é o planeamento de refeições, mas num entendimento mais simples. Podemos começar por fazer uma ementa da semana com o aquilo que temos em casa, sem a obrigatoriedade de preparar todas as refeições. Sou apologista de pequenas mudanças."
A especialista recomenda ainda que se faça uma lista antes de ir às compras e que alguns alimentos sejam pré-preparados: "Por exemplo, se temos por hábito fazer sopa várias vezes por semana, podemos cortar batata, cebola e legumes e colocar num saco de congelação para facilitar o processo mais tarde." Já no que diz respeito à organização da despensa, Cláudia Ganhão aconselha a colocar os alimentos com a data de validade mais próxima à frente para evitar que acabem esquecidos ou estragados.




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