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Um Natal sustentável cabe na carteira?

  • Writer: UCD
    UCD
  • Dec 29, 2025
  • 4 min read

Updated: Dec 30, 2025


Expresso



Caro leitor,


Acaba de chegar à sua caixa de correio mais uma edição da newsletter do Expresso SER, dedicada à sustentabilidade.


Uma vez por mês, à terça-feira, o SER traz-lhe um tema-chave sobre o ambiente, com contexto, dados recentes e exemplos concretos da transição ecológica. Hoje falamos do Natal e de como pode ser mais sustentável.


Quando a sustentabilidade ainda soa a luxo

Para muitas famílias, a sustentabilidade continua associada a preços mais elevados. Produtos com certificações ambientais, alimentos biológicos ou presentes produzidos segundo critérios éticos são, por norma, mais caros no retalho tradicional.


Dados europeus mostram mesmo que os produtos alimentares biológicos apresentam, em média, preços entre 20% e 30% superiores aos dos convencionais. Ora, num contexto de inflação ainda elevada e de rendimentos pressionados, o preço continua a ser o principal critério de escolha para a maioria dos consumidores.


O problema é estrutural: quando a sustentabilidade é percecionada como um luxo, deixa de ser uma mudança de hábitos generalizada e passa a ser uma opção acessível apenas a quem tem maior margem financeira. E isso fragiliza a própria transição sustentável.


Pico de consumo, pressão na carteira

O Natal continua a ser um momento simbólico que as famílias procuram preservar, mas com sinais claros de contenção.


Um estudo levado a cabo pelo IPAM revela que, este ano, os portugueses planeiam gastar cerca de 398 euros, um aumento muito ligeiro face a 2024, explicado sobretudo pela subida dos preços e não por um maior poder de compra.


Metade das famílias admite ter mudado hábitos: cortam algumas despesas, planeiam melhor e reduzem o número de pessoas a quem oferecem presentes. Ainda assim, o consumo mantém-se, muitas vezes apoiado no subsídio de Natal, num equilíbrio delicado entre tradição e orçamento.


Parte desse consumo concentra-se nas prendas, em especial no vestuário, uma das categorias mais procuradas nesta época. Em Portugal, cada pessoa gasta, em média, cerca de 670 euros por ano em roupa, mas a maioria dos consumidores continua a privilegiar o preço em detrimento de opções sustentáveis.


É neste contexto que a sustentabilidade deixa de ser uma ideia abstrata e passa a ter uma dimensão muito concreta: o que se compra, quanto se compra e o que acaba desperdiçado.

Mais consumo, mais resíduos e mais desperdício

O aumento do consumo na época natalícia traduz-se também num pico de resíduos, em particular de embalagens, embrulhos e descartáveis. Em Portugal, cada pessoa produz mais resíduos de embalagens plásticas do que a média europeia, e as taxas de reciclagem continuam abaixo do desejável.


O problema é particularmente doméstico. Cerca de 67% do desperdício alimentar acontece nas casas, e o país lidera a União Europeia no desperdício alimentar doméstico per capita. Num mês marcado por compras excecionais e mesas reforçadas, a probabilidade de excesso aumenta e com ela o desperdício financeiro e ambiental.


À escala europeia, este fenómeno tem um peso económico relevante, com os alimentos desperdiçados a representarem mais de 130 mil milhões de euros por ano. No Natal, parte desse valor começa em decisões simples, como por exemplo comprar em excesso, não planear quantidades ou ceder a compras por impulso.

Compras por impulso? São um problema económico e ambiental

As compras de última hora tendem a ser mais rápidas, menos refletidas e mais caras. A urgência favorece decisões impulsivas, muitas vezes feitas para cumprir um ritual social ou aliviar a pressão da época.


Definir um orçamento, fazer listas e estabelecer prioridades não é apenas uma boa prática financeira. É também uma das formas mais eficazes de reduzir desperdício - de dinheiro, de alimentos e de materiais - numa altura em que tudo convida ao excesso.



Escolhas simples que fazem diferença

Não há um Natal sustentável ideal. Há escolhas possíveis e cada vez mais comuns. Deixo-lhe alguns exemplos que provam que a sustentabilidade nesta quadra festiva passa menos por comprar produtos “verdes” e mais por comprar menos, planear melhor e aceitar algum desapego do excesso.

  • Amigo secreto em vez de presentes para todos: é uma das formas mais eficazes de reduzir consumo. Menos compras, menos gasto e menos resíduos, sem eliminar o gesto simbólico da prenda;

  • Definir um valor máximo para as prendas: tetos de gasto ajudam a evitar compras por impulso e a reduzir a pressão para compensar com objetos desnecessários. O efeito é financeiro, mas também ambiental;

  • Oferecer experiências em vez de objetos: jantares, espetáculos ou atividades partilhadas não geram resíduos pós-Natal e evitam que o presente acabe esquecido numa gaveta. Para muitas famílias, são também mais acessíveis;

  • Reutilizar embrulhos e simplificar embalagens: a União Europeia gera milhões de toneladas de resíduos de embalagens por ano, com picos de produção associados a épocas festivas. Reutilizar embrulhos reduz custos imediatos e desperdício;

  • Ceias pensadas para sobrar menos: planear quantidades, evitar pratos que “fazem parte da tradição” mas acabam por não ser consumidos e reaproveitar sobras nos dias seguintes tem impacto direto no lixo (e na fatura do supermercado);

  • Combinar prendas entre adultos: cada vez mais famílias optam por oferecer apenas às crianças ou por fazer uma prenda conjunta entre adultos, reduzindo consumo repetido.


 
 
 
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