Código e carga: a dupla frente contra o desperdício
- UCD

- Jan 13
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Europa desperdiça 60 milhões de toneladas de comida anualmente, um problema ambiental e social no valor de 130 mil milhões de euros. A resposta inclui desde frotas de bicicletas em Milão a algoritmos que preveem excessos em cantinas italianas, mostrando que reduzir o desperdício exige tanto tecnologia como mudança cultural
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A dimensão do desperdício alimentar na União Europeia é difícil de visualizar, mas alguns números ajudam: são quase 60 milhões de toneladas por ano, o que significa que cada cidadão descarta, em média, mais de 132 quilogramas. Este volume colossal, com um valor de mercado superior a 130 mil milhões de euros, é responsável por quase 10% das emissões globais de gases com efeito de estufa, segundo estimativas das Nações Unidas. Perante este cenário, a Comissão Europeia assumiu o compromisso de reduzir para metade o desperdício alimentar até 2030. Mas alcançar esta meta ambiciosa depende cada vez mais de ações concretas no terreno, impulsionadas por cidades, empresas sociais e startups que estão a testar soluções em duas frentes principais: a redistribuição do excedente e a prevenção na fonte.
Em Milão, a resposta materializa-se sobre duas rodas. A cidade, que há uma década lançou o Milan Urban Food Policy Pact, está a fortalecer o seu sistema de recuperação de excedentes, estendendo-o a cantinas escolares. A iniciativa chama-se CARE (Cargo bike Action for Rescuing Edibles) e foi desenvolvida no âmbito do projeto europeu CULTIVATE, que apoia iniciativas de partilha de alimentos. A operação logística foi confiada à SO.DE Social-Delivery, um serviço de “entrega social ética” cofundado por Naima Comotti. “O município confiou-nos o teste logístico, e nós acompanhámos todo o processo. Selecionámos as escolas, implementámos a fase de recuperação, monitorizámos quantidades e identificámos a rede de redistribuição”, explica Comotti.
Entre fevereiro e junho de 2025, o projeto piloto funcionou em duas fases, começando com 10 escolas e alargando depois a mais 8. Uma frota de bicicletas de carga, capazes de transportar até 100 kg, assegurou a recolha e entrega. As restrições legais para alimentos cozinhados ou perecíveis limitaram a ação a pão e fruta, mas mesmo assim foram recuperadas três toneladas de comida. Esta foi redistribuída por uma rede de cerca de 12 pontos, que incluíam cantinas sociais e associações. Irene Fabricci, especialista em sistemas alimentares da rede de cidades ICLEI, sublinha que o impacto vai além do peso salvo. “A ideia subjacente a estas iniciativas é imaginar um sistema alimentar alternativo que não trate a comida apenas como uma mercadoria, mas que destaque também o seu valor social como algo a ser partilhado”, observa.
Enquanto o CARE atua a jusante, recuperando o que já não foi consumido, outras abordagens procuram atacar o problema a montante, evitando que o excesso sequer seja produzido. Foi essa a motivação de Massimiliano Carraro, engenheiro ambiental que, ao testemunhar o desperdício na cantina de uma empresa no norte de Itália, decidiu fundar a startup Behavix! com Stefania Malfatti. “O que fica nos pratos é essencialmente o reflexo de um desalinhamento entre a procura e a oferta”, nota Carraro. A sua solução, desenvolvida com apoio do projeto europeu REDUCE, usa tecnologia para quantificar e analisar as causas do desperdício.
O sistema foi testado na cantina do Hospital San Bortolo, em Vicenza, com uma câmara e software de visão computacional a analisar os restos nos tabuleiros devolvidos após a refeição. Um algoritmo processa as imagens, classificando o tipo e a quantidade de comida deixada no prato. A empresa disponibiliza agora duas ferramentas: uma aplicação web e um sistema mais sofisticado, o Be-Pro, que integra algoritmos de inteligência artificial. “É um sistema de monitorização que não só quantifica o desperdício alimentar como também analisa as suas causas. Com base em parâmetros específicos de cada contexto, permite estimar as razões por detrás do desperdício e planear intervenções dirigidas para o prevenir”, detalha Carraro. O resultado é uma redução de quase 40% no desperdício em cantinas corporativas em poucos meses.
O sucesso está a levar ambas as soluções a expandir-se. A Behavix! planeia alargar a sua operação a outros países europeus e a restaurantes de cadeia. Em Milão, o modelo CARE já está a ser replicado por outras três organizações, com o apoio da equipa original. “Nós não fornecemos apenas um serviço de entrega — oferecemos coaching para transmitir a nossa experiência e espalhar os princípios da entrega ética”, explica Naima Comotti.
Contudo, os obstáculos persistem e vão além dos técnicos. Carraro identifica um “fator cultural” resistente em parte do setor da restauração coletiva. “Alguns operadores tratam o desperdício alimentar como um dano colateral, para ser aceite e varrido para debaixo do tapete”, afirma. Paralelamente, as iniciativas de redistribuição deparam-se com barreiras legislativas que limitam os tipos de alimentos que podem ser salvados e com normas sociais profundamente enraizadas. Irene Fabricci aponta o estigma como um entrave. “Por vezes, a vergonha impede exatamente aqueles que mais precisam de aceitar este tipo de apoio, porque fomos condicionados a acreditar que a incapacidade de aceder a comida é um fracasso pessoal. Há, portanto, uma narrativa que tem de mudar: a redistribuição do excedente alimentar não é caridade — é sobre o direito à alimentação”, conclui.
Enquanto a inteligência artificial ajuda a prever e ajustar a produção nas cozinhas, as bicicletas de carga continuam a percorrer as ruas de Milão, num esforço complementar para dar um destino útil ao que já foi feito. Juntas, estas abordagens mostram que o caminho para cumprir a meta europeia de 2030 será necessariamente plural, exigindo tanto inovação tecnológica como uma revisão profunda da forma como a sociedade valoriza e partilha um dos seus recursos mais básicos.




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