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Um terço dos portugueses tem baixa literacia alimentar. Preço dos alimentos e desinformação dificultam escolhas saudáveis

  • 6 days ago
  • 3 min read


Estudo pioneiro nacional mostra que aplicar o conhecimento continua a ser o maior obstáculo à alimentação saudável.


Os portugueses têm cada vez mais informação sobre alimentação, mas continuam a ter dificuldade em transformá-la em escolhas saudáveis. O estudo nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos, apresentado hoje pela Associação Portuguesa de Nutrição em parceria com o Continente, revela um índice médio de literacia de 57,5%, um valor intermédio que esconde desigualdades significativas: cerca de um terço da população não ultrapassa os 50% e apenas 11% supera os 75%.


Realizado pela Pitagórica, com base em mil entrevistas recolhidas em outubro de 2025, o estudo mostra que o problema já não está no acesso à informação. “A população acede e compreende a informação, mas aplicar esse conhecimento é onde parece haver mais dificuldade”, resume Helena Real, secretária‑geral da APN.


Nos cuidados de saúde, este desfasamento entre saber e fazer é evidente. A médica de família Margarida Graça Santos descreve ao SAPO um cenário que se repete nas consultas: “Muitos dos utentes têm dificuldades basilares, como habitação ou acesso à alimentação. A informação por si só não é suficiente.”


Na prática clínica, acrescenta, isto traduz‑se em pessoas que conhecem as recomendações, mas não têm condições para as cumprir: “Temos muitas vezes pessoas que sabem o que deveriam comer, mas não conseguem fazê‑lo por falta de recursos ou apoio.”


Segundo o estudo, 44% dos inquiridos dizem ter de gerir cuidadosamente os gastos e 34% afirmam que o rendimento apenas chega para as necessidades básicas do agregado familiar.


Durante a apresentação, Nuno Pais de Figueiredo, da DECO PROteste, lembrou que o cabaz alimentar monitorizado pela associação tem aumentado todas as semanas nos últimos quatro anos, mesmo em períodos sem guerras ou crises ambientais que possam explicar essas subidas.


Este contexto ajuda a explicar porque é que os níveis mais baixos de literacia aparecem sobretudo entre pessoas mais velhas, famílias com rendimentos reduzidos e indivíduos com doenças crónicas ou excesso de peso.



Rótulos, sustentabilidade e aplicação prática como desafios

O estudo identifica mais facilidade nas dimensões de seleção (58,4%) e preparação (58,9%), mas é na fase em que realmente se decide o que se come, no consumo, que surgem mais obstáculos (54,7%).


As principais dificuldades identificadas são interpretar informação sobre alergénios (44%), avaliar se um produto é saudável a partir da rotulagem frontal (41%) e encontrar informação sobre o impacto social ou ambiental da alimentação (54%).


“Conhecer não significa saber fazer”, reforça Helena Real. “Há muita informação disponível, mas falta capacitar as pessoas para a usarem no dia‑a‑dia.”



Demasiada informação e muita desinformação

A desinformação é apontada como uma ameaça central à literacia alimentar, amplificada pelas redes sociais e pela proliferação de conteúdos não validados e de fontes não oficiais.


“Temos de ter informação rigorosa, mas também simples e apelativa. Se não simplificarmos a mensagem, não conseguimos chegar às pessoas”, alerta Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável em conversa com o SAPO à margem da apresentação.


A responsável admite que os rótulos e embalagens comunicam demasiados elementos e que isso não ajuda: “O consumidor perde‑se no excesso de informação.”


Por isso, a DGS quer reforçar a presença de conteúdos validados nos canais onde os cidadãos realmente procuram respostas: motores de busca, plataformas digitais e ferramentas tecnológicas emergentes, e não apenas nos sites institucionais.


Mais nutricionistas e equipas multidisciplinares

A presença de nutricionistas em mais áreas da vida, e nomeadamente nos serviços de saúde primários foi um dos temas sublinhados.


Margarida Graça Santos partilha a experiência como médica de família e adianta: “Todos os dias tenho utentes que precisariam de acompanhamento nutricional. Estes recursos continuam a ser vistos como acessórios, quando são fundamentais para prevenir doença”.


Para Helena Real, a resposta deve ser alargada: “Os nutricionistas devem integrar equipas de cuidados de saúde primários, mas também escolas, empresas e outras instituições.”


Hortas e ementas nas escolas, mas um vazio na alimentação dos mais pequenos

A alimentação infantil e escolar voltou a ser apontada como um dos pontos mais importantes da literacia alimentar. Nos últimos anos, estudos nacionais mostraram um agravamento do excesso de peso nas crianças, sobretudo durante a pandemia e elogiaram-se iniciativas escolares – das ementas mais equilibradas às hortas pedagógicas – que têm contribuído para aproximar os alunos da alimentação saudável.


Mas, apesar destes avanços, os berçários e creches continuam sem regras específicas sobre a oferta alimentar, ao contrário do que acontece no ensino básico.


Para Helena Real, esta ausência de enquadramento significa perder tempo precioso numa fase decisiva do desenvolvimento: “É sempre uma base de construção, é sempre uma janela de oportunidade incrível, porque conseguimos, nessa fase, que muitos comportamentos se sedimentem para a vida inteira.”


Questionada pelo SAPO sobre esta lacuna, Maria João Gregório confirma que a Direção‑Geral da Saúde está a trabalhar numa solução e acredita que “ao longo de 2026 possamos ter novidades”.



 
 
 

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