Revestimento de algas manteve morangos sem bolor durante quatro dias sem frio
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Um revestimento alimentar de origem vegetal pode melhorar o transporte e o armazenamento de fruta.

Os morangos são conhecidos por serem difíceis de manter frescos sem refrigeração. Mas e se, em vez de manter a fruta fria ao longo de toda a cadeia de abastecimento, lhe déssemos uma segunda pele protetora?
Melhor ainda: e se essa proteção fosse natural e sem plástico?
Investigadores da University of British Columbia (UBC) desenvolveram um revestimento fino e comestível, feito a partir de ágar derivado de algas, que ajuda morangos, uvas e fatias de maçã a manterem-se frescos durante mais tempo.
Nos testes, os morangos revestidos ficaram sem bolor durante pelo menos quatro dias à temperatura ambiente. Perderam também muito menos humidade e mantiveram-se bastante mais firmes do que os morangos não tratados.
Os resultados do estudo foram apresentados num artigo publicado na semana passada na Journal of Agricultural and Food Chemistry.
“A nossa esperança é ajudar a manter os produtos frescos durante mais tempo em todo o sistema alimentar”, afirmou Tianxi Yang, investigadora da UBC e autora principal do estudo, em comunicado da universidade.
“Se conseguirmos reduzir a deterioração durante o armazenamento e o transporte, podemos reduzir o desperdício alimentar e gastar menos energia a conservar os alimentos”, acrescentou.
Transformar algas num escudo protetor
Depois de colhidos, os produtos frescos continuam a respirar e perdem água aos poucos. À medida que a fruta seca, amolece, murcha e fica mais vulnerável a bactérias e bolor.
A refrigeração abranda drasticamente estes processos. O problema é que manter uma cadeia de frio desde as explorações agrícolas até aos armazéns, camiões e supermercados exige muita energia e infraestruturas.
A equipa da UBC abordou o problema pelo lado oposto. Em vez de alterar o ambiente à volta da fruta, colocou uma barreira protetora diretamente na sua superfície.
A base do revestimento é o ágar, uma substância derivada de algas vermelhas já muito usada na alimentação como espessante e alternativa vegetal à gelatina. Os investigadores combinaram-no com ácido tânico, um composto vegetal presente em alimentos como as uvas e o chá, e com zinco, um micronutriente essencial.
Os iões de zinco ligam-se ao ácido tânico, o que leva os ingredientes a organizarem-se em minúsculas partículas dentro do ágar. Basta mergulhar um morango na mistura e, quando esta seca, o revestimento forma uma camada fina e transparente sobre a fruta.
“Foi entusiasmante ver as partículas a organizarem-se em tempo real, a passarem de um líquido turvo e leitoso para esta camada protetora incrivelmente uniforme. Tanto quanto sabemos, ninguém tinha feito antes um revestimento de micropartículas à base de ágar como este”, afirmou Ivy Chiu, doutoranda na UBC e primeira autora do estudo.
O revestimento faz duas coisas ao mesmo tempo. Trava a perda de água da fruta e tem também atividade antibacteriana, o que ajuda a proteger os produtos dos microrganismos ligados à deterioração.
Os morangos mostram a maior diferença
Os morangos deram alguns dos resultados mais claros.
Ao fim de quatro dias à temperatura ambiente, os morangos não tratados tinham perdido 30,59% do peso, contra apenas 13,36% dos morangos revestidos.
A fruta revestida estava também muito mais firme. Registou uma firmeza de 41,77 newtons, contra 18,53 newtons dos morangos não tratados, ou seja, resistiu à deformação com mais do dobro da força durante o teste de firmeza.
A vitamina C e os compostos antioxidantes também se conservaram melhor. A UBC indica que os morangos não tratados à temperatura ambiente começavam a ganhar bolor ao fim de cerca de dois dias, enquanto os revestidos ficaram sem bolor durante pelo menos quatro dias sem refrigeração.
“Queríamos encontrar uma alternativa simples ao armazenamento a frio. Depois de aplicarmos o revestimento, a fruta ficou muito menos sensível a variações de temperatura e humidade e manteve-se fresca durante mais tempo”, acrescentou Yang.
E o revestimento não se ficou pelos morangos. Trouxe benefícios de conservação até 14 dias nas uvas e cerca de 24 horas nas fatias de maçã.
Um revestimento que se pode lavar
O revestimento é extremamente fino e não tem sabor. Mas ainda tem de passar num teste prático junto dos consumidores: e se alguém não o quiser na fruta?
Os investigadores descobriram que a maior parte do revestimento sai ao passar por água da torneira durante dois minutos.
Substituíram também o ágar de qualidade laboratorial por ágar de qualidade alimentar disponível no mercado e concluíram que o revestimento continuava a reduzir a deterioração e a perda de humidade nos morangos.
Uma avaliação do ciclo de vida estimou que o revestimento pode ter uma pegada de carbono 14% menor do que a refrigeração convencional e reduzir a ecotoxicidade de água doce em cerca de 85%.
A ecotoxicidade de água doce é uma métrica que estima como as emissões químicas podem prejudicar as espécies aquáticas e o funcionamento dos ecossistemas. Os investigadores atribuíram grande parte da diferença à menor necessidade de eletricidade e de fluidos refrigerantes.
Os investigadores veem este revestimento como útil sobretudo nas fases de transporte e armazenamento. Não se trata tanto de manter a fruta fresca na bancada da cozinha, mas antes de reduzir a quantidade de frio necessária durante o armazenamento e o transporte, e de manter os produtos seguros durante mais tempo.
Ainda assim, os resultados atuais não chegam para eliminar a refrigeração. As experiências decorreram em condições controladas e os produtos que percorrem longas distâncias ou exigem armazenamento prolongado podem continuar a precisar de frio, nota o ZME Science.
A tecnologia terá também de provar que pode ser produzida de forma barata e consistente, aplicada de forma eficiente à escala comercial e, ao mesmo tempo, cumprir os requisitos de segurança alimentar e regulamentares.




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