Há muita “Natureza-morta” para ver na Avenida de Ceuta
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A ideia é que, através da fotografia, possamos pensar o desperdício alimentar – e questionar o que tem ou não valor.

Em todo o mundo, um terço de todos os alimentos produzidos acaba por não ser consumido. Em Portugal, são cerca de 184 quilos de comida por pessoa em apenas um ano. Ao mesmo tempo, uma em cada 11 pessoas vive em situação de fome. Patente na Avenida de Ceuta, nas paredes laterais da Fábrica de Água de Alcântara, a exposição “Natureza-morta” convida-nos a pensar nestes números e em muitos outros – como, por exemplo, os 10% de emissões globais de gases com efeitos de estufa, pelos quais o desperdício alimentar é responsável. A proposta é do projecto de literacia alimentar Kitchen Dates.
“Ainda era comida. Mas acabou no lixo” é o que se lê numa das fotografias expostas na Avenida de Ceuta. “Quando imaginámos o projecto Natureza-morta, a exposição fotográfica era a peça central. Queríamos levar arte a um bairro tantas vezes esquecido. Queríamos que artistas locais trabalhassem o tema do desperdício alimentar, o mastigassem e o mostrassem com um novo olhar. O desafio era criarem naturezas-mortas contemporâneas que ilustrassem em simultâneo a problemática do desperdício”, lê-se no Instagram do Kitchen Dates, que promoveu oficinas de cozinha na Quinta do Loureiro no âmbito desta iniciativa.
Entre Outubro e Dezembro de 2025, reuniram-se vozes e olhares de diferentes gerações do bairro, para conversar sobre alimentos ainda comestíveis, mas rejeitados por motivos estéticos ou comerciais. O objectivo foi, por um lado, questionar a linha entre o que tem valor e o que é descartado; e, por outro, criar um espaço para a visibilidade, o sentido cívico e a resiliência num lugar com uma história social marcada pela exclusão e a resistência, originalmente construído para acolher antigos moradores do Casal Ventoso.
Já as fotografias e design são da autoria de João Santos, estudante de fotografia, que nasceu e cresceu na Quinta do Loureiro; Joana Meneses, fotógrafa apaixonada por alimentação e sustentabilidade; e Cláudia Soares, artista que trabalha sobretudo o tema da alimentação. Sobre a escolha do nome para a exposição, parte da tradição artística da still life, mas apropria-se do termo para lhe dar um novo significado.
“Nas pinturas clássicas, a natureza-morta celebrava a abundância, o exotismo, o luxo ou a ideia de tempo suspenso, com frutas perfeitas, flores exuberantes, objectos valiosos. Aqui, o conceito é invertido: o foco não está no excesso, mas no que sobra; não na opulência, mas na fragilidade; não no objecto precioso, mas no alimento que, apesar de ainda ter vida e potencial nutritivo, é tratado socialmente como se estivesse ‘morto’.”
Esta exposição – que também resultou num livro com receitas e dicas de reaproveitamento, que pode ser descarregado gratuitamente – foi desenvolvida em conjunto com a associação Deco, para o projecto “Feed Your Future – Engaging Youth for Creative Climate Action, financiado pelo programa CREA EU, coordenado pelo Município de Milão e implementado por um consórcio de oito parceiros, incluindo a Associação de Desenvolvimento Local de Base Comunitária de Lisboa.
Avenida de Ceuta, nas paredes laterais da Fábrica de Água de Alcântara. 24/7. Grátis




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