Entrevista: Projeto NOVAPACK pretende transformar subprodutos agrícolas em embalagens que prolongam a vida dos alimentos
- Dec 23, 2025
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GreenSavers

O grupo de Bioativos & Bioproductos do Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) da Universidade Católica Portuguesa coordena um projeto que procura desenvolver soluções inovadoras de embalagem com propriedades bioativas, extraídas de subprodutos vegetais produzidos na zona do mediterrâneo. O projeto NOVAPACK, reúne oito parceiros de quatro países mediterrânicos – Portugal, Espanha, Tunísia e Egito – regiões particularmente afetadas pelo desperdício alimentar, escassez de água e alterações climáticas. Em entrevista à Green Savers, Manuela Pintado, docente e investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, revela que resultados concretos foram alcançados e que impacto poderão ter estas soluções no setor agroalimentar.
No primeiro ano, os investigadores identificaram extratos naturais com forte atividade antimicrobiana e antioxidante, juntamente com polímeros como pectina, celulose e lignina, que estão a ser incorporados em revestimentos e filmes biodegradáveis. Alguns extratos até podem funcionar como sensores do estado dos alimentos, abrindo caminho a embalagens multifuncionais que protegem, informam e prolongam a frescura dos produtos.
Para a investigadora, estas inovações representam uma oportunidade única de reduzir plásticos, aproveitar subprodutos locais e criar cadeias alimentares mais sustentáveis e resilientes na região mediterrânica. O NOVAPACK pretende assim não só proteger o ambiente, mas também aumentar a competitividade dos produtores, reduzir perdas pós-colheita e promover uma economia circular real e aplicada.
O projeto NOVAPACK já completou o primeiro ano de trabalho. Que resultados considera mais determinantes para o avanço das próximas fases?
No primeiro ano concluímos a caracterização completa dos subprodutos selecionados e obtivemos extratos com propriedades antimicrobianas e antioxidantes muito promissoras bem como frações poliméricas relevantes – pectina, celulose e lignina. Estes extratos e alguns polímeros constituem agora a base das formulações de revestimentos ativos e materiais biodegradáveis que estamos a desenvolver. Nos próximos anos iremos avançar para a produção de protótipos de filmes, ajustar as condições de libertação dos bioativos e realizar ensaios de desempenho.
No futuro, os ensaios de desenvolvimento de embalagens estruturadas a nível laboratorial e piloto de que terão lugar em Espanha, serão fundamentais para avaliar o comportamento dos materiais nos limites estabelecidos pela legislação. Finalmente, na última fase do projeto, os diferentes revestimentos, filmes e embalagens serão testados por todos os parceiros, aplicados a distintos modelos alimentares, de forma a assegurar a respetiva prova de conceito.
A caracterização físico-química e microbiológica dos subprodutos foi concluída com sucesso. Houve algum resultado inesperado ou particularmente promissor que mereça destaque?
Embora o projeto ainda se encontre no seu primeiro ano de execução, e os dados obtidos sejam por isso preliminares e sujeitos a validação, nomeadamente com a próxima colheita de subprodutos, vários resultados já merecem destaque pela sua relevância científica e pelo impacto potencial nas etapas seguintes do NOVAPACK.
Para além da variabilidade esperada entre diferentes subprodutos, foi particularmente promissor observar que alguns extratos apresentaram atividade antimicrobiana e antioxidante significativos, mantendo simultaneamente um perfil sensorial potencialmente neutro – um aspeto crítico e nem sempre garantido quando se trabalham extratos naturais ricos em compostos fenólicos ou voláteis. Observando-se ainda, mecanismos de ação complementares, combinando efeitos antioxidantes com ação antimicrobiana. Esta combinação abre a possibilidade de desenvolver sistemas de embalagem multifuncionais. Salientamos ainda a possibilidade de alguns destes extratos exibirem cor (antocianinas do bagaço de uva) e poderem ser aplicados como indicadores de alteração do pH ou mesmo no caso dos carotenoides do tomate como pigmento natural de cor laranja relevante para alguns revestimentos.
Estes resultados iniciais não são ainda conclusivos, mas fornecem indicações consistentes que orientam a seleção das frações mais promissoras e apoiam a definição das estratégias a testar nas fases seguintes do projeto, incluindo a formulação e validação de protótipos de materiais de embalagem ativos.
Um dos objetivos do NOVAPACK é reduzir o uso de plásticos na conservação de alimentos perecíveis. Em termos práticos, que tipo de impacto espera que estas novas embalagens possam ter no setor agroalimentar da região mediterrânica?
Em termos práticos, o impacto esperado do NOVAPACK no setor agroalimentar da região mediterrânica manifesta-se sobretudo em três níveis: ambiental, económico e operacional.
Do ponto de vista ambiental, o desenvolvimento de materiais biodegradáveis e revestimentos ativos permite reduzir a dependência de plásticos de origem fóssil, particularmente relevantes em contextos onde as taxas de reciclagem são baixas ou inexistentes
Do ponto de vista ambiental, o desenvolvimento de materiais biodegradáveis e revestimentos ativos permite reduzir a dependência de plásticos de origem fóssil, particularmente relevantes em contextos onde as taxas de reciclagem são baixas ou inexistentes. Em muitas regiões mediterrânicas, sobretudo no Norte de África, os plásticos convencionais acabam frequentemente em aterro, no solo ou nos sistemas hídricos, contribuindo para a poluição marinha e para a formação de microplásticos. A substituição parcial destes materiais por soluções biodegradáveis pode ter um impacto direto na mitigação destes problemas.
A nível económico e logístico, as embalagens ativas desenvolvidas no projeto têm o potencial de prolongar a vida útil de alimentos perecíveis, reduzindo perdas ao longo da cadeia de valor, desde a produção até à distribuição. Isto é particularmente relevante numa região caracterizada por longas distâncias de transporte, interrupções frequentes da cadeia de frio e condições climáticas adversas, fatores que afetam a competitividade dos produtores e aumentam o desperdício alimentar.
Finalmente, estas soluções permitem simplificar alguns sistemas de embalagem, reduzindo a necessidade de polímeros de origem fóssil ou do uso intensivo de conservantes, enquanto promovem a valorização local de subprodutos agroalimentares como matérias-primas. Este modelo contribui para cadeias mais circulares, cria valor económico adicional para produtores e transformadores locais e reforça a resiliência ambiental e económica do setor agroalimentar mediterrânico.
O projeto envolve parceiros de quatro países com realidades bastante distintas. Quais têm sido os maiores desafios na articulação entre equipas e na harmonização de procedimentos?
Um dos principais desafios tem sido a harmonização de procedimentos científicos e técnicos entre parceiros de diferentes países, que operam com infraestruturas, rotinas laboratoriais e níveis de maturidade tecnológica distintos. Para garantir resultados comparáveis e transferíveis, foi necessário alinhar protocolos de amostragem, caracterização de subprodutos, extração de compostos bioativos e avaliação de desempenho, num contexto em que a variabilidade natural dos subprodutos agrícolas – influenciada pela sazonalidade, condições climáticas e práticas agrícolas locais -acrescenta complexidade adicional.
Um dos principais desafios tem sido a harmonização de procedimentos científicos e técnicos entre parceiros de diferentes países, que operam com infraestruturas, rotinas laboratoriais e níveis de maturidade tecnológica distintos
Outro desafio relevante prende-se com a coordenação logística e temporal do trabalho entre equipas, assegurando a circulação de amostras, a rastreabilidade dos materiais e o cumprimento de prazos comuns, apesar de diferenças geográficas, administrativas e regulatórias. A gestão destas assimetrias exigiu um esforço organizacional significativo e uma comunicação contínua entre os parceiros.
Apesar destes desafios, a diversidade do consórcio tem sido uma mais-valia. O trabalho colaborativo permitiu trocar conhecimento, ajustar metodologias e criar uma base comum de atuação, tornando os resultados mais robustos e representativos da realidade mediterrânica. No final do primeiro ano, esta articulação tem-se refletido em avanços científicos sólidos, que superaram as expectativas iniciais e criaram condições favoráveis para as próximas fases do projeto.
Porque é que o Mediterrâneo é uma região crítica para este tipo de inovação?
A região mediterrânica – que abrange o sul da Europa, o Norte de África e parte do Médio Oriente – é uma das áreas do mundo mais vulneráveis às alterações climáticas, enfrentando temperaturas extremas, escassez de água e perdas agrícolas significativas. Ao mesmo tempo, é uma das regiões mais ricas em produção agroalimentar, gerando grandes volumes de subprodutos que nem sempre são valorizados ou corretamente tratados. Esta combinação de abundância de recursos e fragilidade ambiental torna o Mediterrâneo um laboratório natural para soluções sustentáveis de embalagem.
A combinação de abundância de recursos e fragilidade ambiental torna o Mediterrâneo um laboratório natural para soluções sustentáveis de embalagem
Ao mesmo tempo, trata-se de uma das regiões agrícolas mais ricas e diversificadas do mundo, responsável por grandes volumes de frutas, legumes, azeite, tomate, citrinos e outros produtos típicos da dieta mediterrânica. Esta elevada produção gera igualmente grandes quantidades de subprodutos e resíduos agroalimentares, que em muitos casos não são valorizados nem corretamente tratados, contribuindo para problemas ambientais significativos, incluindo em alguns países baixa taxa de reciclagem de embalagens.
A nível económico, o Mediterrâneo funciona como um ecossistema interligado. Muitos países do Norte de África têm na Europa o seu principal mercado de exportação agroalimentar, mas as respetivas cadeias de fornecimento ainda enfrentam desafios importantes: interrupções frequentes da cadeia de frio, longas distâncias de transporte, condições climáticas adversas e perdas pós-colheita elevadas. Estes fatores reduzem a competitividade dos produtores e aumentam significativamente as taxas de desperdício alimentar.
É precisamente por isso que o NOVAPACK ganha uma relevância especial nesta região. Ao reunir parceiros de países com realidades e níveis tecnológicos distintos — desde Portugal e Espanha até à Tunísia e Egito — o consórcio consegue criar soluções que respondem a desafios partilhados, promover a transferência de conhecimento e implementar boas práticas de forma transversal.
O objetivo é claro: desenvolver embalagens mais naturais, sustentáveis e ativas que aumentem a vida útil dos alimentos, estabilizem a cadeia de fornecimento, reduzam o desperdício, valorizem subprodutos agrícolas e gerem mais retorno económico para os produtores locais. Ao mesmo tempo, reforçam-se práticas de economia circular e aumenta-se a resiliência ambiental e económica da região mediterrânica.
No final, este trabalho conjunto prepara o território – europeu e africano – para enfrentar melhor os impactos climáticos e criar condições mais sustentáveis e competitivas para as gerações futuras.
Como é que Portugal ganhou a liderança deste projeto europeu?
Portugal conquistou a liderança do NOVAPACK não apenas pela maturidade científica e tecnológica acumulada na valorização de subprodutos e no desenvolvimento de soluções de embalagem sustentáveis, mas também pela força e dinâmica interna do Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF – Laboratório Associado) que se integra na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, que tem uma tradição profundamente consolidada em bioprocessos, extrações verdes, biorefinaria e formulação de materiais inovadores para aplicações alimentares.
Portugal conquistou a liderança do NOVAPACK não apenas pela maturidade científica e tecnológica acumulada na valorização de subprodutos e no desenvolvimento de soluções de embalagem sustentáveis, mas também pela força e dinâmica interna do Centro de Biotecnologia e Química Fina
Um elemento diferenciador foi o trabalho relevante do grupo de Bioativos e Bioprodutos, uma equipa altamente especializada que tem construído metodologias pioneiras na identificação, extração e aplicação de compostos naturais. Este grupo, que integra investigadores seniores experientes e uma geração de jovens cientistas com grande visão, dinâmica e motivação, foi fundamental desde a fase inicial de conceção do projeto. A sua rede alargada de parceiros de países mediterrânicos foi crucial para mobilizar conhecimento transdisciplinar dos países participantes e transformar a ideia do NOVAPACK numa proposta competitiva e tecnologicamente robusta.
Como coordenadora do projeto, saliento ainda a importância de apoiar e formar jovens investigadores, proporcionando-lhes um ambiente onde possam crescer, desenvolver competências de liderança, construir redes científicas internacionais e assumir responsabilidades crescentes no diálogo com parceiros industriais e académicos. Essa combinação de experiência consolidada com renovação geracional cria um ecossistema de investigação muito forte, capaz de responder a desafios complexos com soluções inovadoras e escaláveis.
Acresce ainda o papel estratégico de Portugal como país mediterrânico com forte produção agrícola, cuja realidade reflete diretamente os desafios que o NOVAPACK procura solucionar. Este alinhamento entre competência científica, capacidade de coordenação e relevância geográfica convergiu naturalmente para que Portugal assumisse a liderança deste projeto europeu, reconhecida e valorizada por todos os parceiros do consórcio.
Como é que funcionam exatamente os extratos antimicrobianos?
As embalagens em desenvolvimento no NOVAPACK têm como objetivo combinar propriedades antimicrobianas e em alguns com funcionalidades como indicadores do estado do alimento, atuando na proteção dos alimentos e na disponibilização de informação relevante ao consumidor. Na vertente antimicrobiana, procuramos que estes materiais sejam capazes de inibir ou retardar o crescimento de microrganismos associados à deterioração de produtos frescos, como carne, pescado, frutas e hortícolas. Para isso, incorporamos extratos naturais com atividade antimicrobiana e antioxidante, obtidos a partir de subprodutos agroindustriais mediterrânicos. Estes compostos são integrados nas matrizes biodegradáveis (polímeros igualmente obtidos dos mesmos subprodutos – como pectina ou celulose) ou aplicados como revestimentos ativos, permitindo uma libertação gradual e controlada que cria uma barreira protetora em torno do alimento, prolongando a sua vida útil e reduzindo a necessidade de conservantes adicionados diretamente ao produto.
As embalagens em desenvolvimento no NOVAPACK têm como objetivo combinar propriedades antimicrobianas e em alguns com funcionalidades como indicadores do estado do alimento, atuando na proteção dos alimentos e na disponibilização de informação relevante ao consumidor
Paralelamente, estamos a desenvolver funcionalidades “inteligentes-que atuam como indicadores” que tornam o revestimento ou filme num sensor de qualidade. Estamos a estudar sistemas que possam sinalizar visualmente alterações relevantes no estado do alimento, como mudanças de pH. Estes mecanismos podem, por exemplo, alterar a cor quando o produto já não se encontra nas condições ideais de conservação. Neste contexto, estas embalagens não se limitam a acondicionar o alimento: atuam de forma ativa na sua conservação e fornecem informação adicional que ajuda a reduzir desperdício, reforçar a segurança alimentar e aumenta a confiança dos consumidores.
As extrações verdes e a lógica de extração em cascata são elementos centrais da abordagem do consórcio. Que vantagens concretas oferecem em comparação com métodos mais tradicionais?
No NOVAPACK, o processo de extração de compostos bioativos segue princípios de biorefinaria sustentável, uma área em que o CBQF tem sido pioneiro em Portugal. Ao longo dos últimos anos, o Centro, em especial o Grupo de Bioativos & Bioprodutos desenvolveu investigação fundamental que permitiu identificar, caracterizar e valorizar uma vasta gama de subprodutos agroindustriais, criando metodologias próprias e reconhecidas internacionalmente e em muitos casos patenteadas. A biorefinaria aplicada à valorização de subprodutos agroalimentares permite a obtenção de diversos ingredientes, moléculas ou extratos com funcionalidades específicas, capazes de conferir propriedades tecnológicas, nutricionais ou bioativas aos produtos finais, nomeadamente através da sua integração em novas embalagens ativas para aplicação alimentar.
No NOVAPACK, o processo de extração de compostos bioativos segue princípios de biorefinaria sustentável, uma área em que o CBQF tem sido pioneiro em Portugal
Com base neste know-how consolidado, o CBQF desenhou para o NOVAPACK estratégias de extração verdes, custo-efetivas e facilmente escaláveis, adaptadas aos subprodutos mais representativos da região mediterrânica. A lógica da biorefinaria é aplicada de forma integral, recorrendo ao fracionamento sequencial dos subprodutos para permitir a recuperação estruturada de diferentes classes de moléculas, extratos ou frações, cada uma com funções específicas e complementares.
Entre estas classes incluem-se:
compostos fenólicos e voláteis com atividade antioxidante e antimicrobiana, essenciais para retardar o crescimento microbiano e a oxidação dos alimentos;
pigmentos naturais, que podem substituir pigmentos sintéticos e conferir propriedades indicadoras de qualidade ou melhorar a aparência dos materiais;
polissacarídeos e fibras estruturais, com capacidade para formar géis, películas biodegradáveis ou reforçar matrizes poliméricas.
Depois de obtidas, estas frações bioativas são incorporadas em materiais de embalagem de duas formas principais, primeiro pela Integração direta em matrizes poliméricas biodegradáveis, onde os compostos ficam imobilizados no material e garantem libertação controlada ao longo do tempo. E segundo, pela sua aplicação como revestimentos ativos, depositados na superfície da embalagem ou aplicados diretamente na superfície do alimento para criar barreiras antimicrobianas e antioxidantes.
O objetivo final é que estes materiais libertem gradualmente os compostos bioativos, prolongando a vida útil dos alimentos, mantendo as suas propriedades sensoriais e aumentando a segurança. A colaboração com parceiros internacionais permite garantir que estas soluções são testadas em condições reais e transferidas para contextos com diferentes capacidades tecnológicas, promovendo a adoção de tecnologias sustentáveis em toda a região mediterrânica.
Os primeiros extratos demonstraram atividades antimicrobianas e antioxidantes interessantes. Em que medida é que estes resultados garantem confiança para a etapa seguinte de incorporação em revestimentos e materiais de embalagem?
Os primeiros resultados obtidos fornecem confiança científica e tecnológica suficiente para avançar para a etapa seguinte de incorporação em revestimentos e materiais de embalagem, por várias razões.
Os primeiros resultados obtidos fornecem confiança científica e tecnológica suficiente para avançar para a etapa seguinte de incorporação em revestimentos e materiais de embalagem, por várias razões
Desde a fase de conceção do projeto, a seleção dos extratos foi orientada não apenas pela atividade antimicrobiana e antioxidante, mas também pela compatibilidade com aplicações alimentares. Foi considerado, desde o início, que alguns compostos naturais, apesar da sua eficácia, podem introduzir sabores ou odores indesejáveis. Por esse motivo, estudámos um conjunto alargado de subprodutos da região Mediterrânica, selecionando apenas aqueles cujos extratos combinam elevada eficácia biológica com e com um perfil sensorial mais neutro ou conciliável com a aplicação em algumas soluções alimentares. Além disso, os extratos são purificados e avaliados em diferentes concentrações e modos de incorporação, permitindo-nos verificar que a sua ação ocorre essencialmente na interface embalagem–alimento, minimizando fenómenos de migração excessiva e reduzindo o risco de impacto direto no sabor ou aroma dos alimentos. Estes resultados preliminares suportam a viabilidade da sua integração em matrizes poliméricas ou revestimentos ativos.
Paralelamente, a confiança para avançar assenta também num enquadramento claro de segurança alimentar e regulamentação. A etapa seguinte será desenvolvida em conformidade com a legislação europeia aplicável a materiais em contacto com alimentos, incluindo ensaios de migração global e específica, avaliação toxicológica quando aplicável e estudos de estabilidade ao longo da vida útil do material.
Em síntese, os resultados iniciais não são encarados como finais, mas como evidência robusta e fundamentada de que os extratos selecionados reúnem as condições necessárias para avançar para a fase de incorporação em materiais de embalagem, com um equilíbrio claro entre eficácia tecnológica, segurança do consumidor e proteção da qualidade sensorial dos alimentos.
Como prevê que a colaboração com startups e parceiros industriais, como a AgroGrIN Tech ou a EVERSIA, acelere a passagem da investigação para aplicações em escala piloto e industrial?
A principal vantagem da colaboração com startups e parceiros industriais reside na criação de uma ponte eficaz entre a investigação académica e a aplicação industrial. As startups desempenham um papel intermédio fundamental, ao terem capacidade para operar em escala piloto, um nível que é geralmente difícil de alcançar tanto nas universidades, mais orientadas para escala laboratorial, como nos parceiros industriais, que trabalham já a volumes muito elevados. Esta etapa intermédia permite validar processos, formulações e extratos em condições próximas da realidade industrial, reduzindo riscos técnicos e económicos antes de avançar para testes em grande escala industrial.
A principal vantagem da colaboração com startups e parceiros industriais reside na criação de uma ponte eficaz entre a investigação académica e a aplicação industrial
Ao mesmo tempo, esta abordagem contribui para uma redução significativa de custos e riscos associados a testes industriais, garantindo que apenas soluções já tecnicamente validadas possam avançar para fases de maior investimento. A colaboração com startups facilita ainda a transferência de know-how, acelera a maturidade tecnológica das soluções desenvolvidas e encurta o tempo necessário para a sua entrada no mercado.
Por fim, a articulação entre startups, universidades e parceiros industriais cria oportunidades concretas de cooperação e internacionalização, nomeadamente entre o tecido empresarial português e espanhol, com o objetivo final de expandir estas soluções de forma progressiva a toda a zona mediterrânica. Esta estratégia permite escalar o impacto do NOVAPACK, adaptando as soluções a diferentes realidades produtivas e reforçando cadeias de valor mais sustentáveis em toda a região.
O projeto pretende também reforçar a resiliência agrícola e económica nas regiões participantes. Que oportunidades de valorização local dos subprodutos agroalimentares já foi possível identificar?
No âmbito conceptual do projeto, foram identificadas as oportunidades claras de valorização por região e quais os subprodutos agroalimentares abundantes e representativos dos diferentes países participantes, tendo em conta as suas realidades produtivas e cadeias agroindustriais e condições climatéricas que também condiciona as fases de colheita.
Em Portugal, o foco incide sobretudo em subprodutos do tomate, da azeitona e da uva, amplamente disponíveis e com elevado potencial para a obtenção de extratos bioativos e frações estruturais. Em Espanha, foram identificados subprodutos também do tomate e dos citrinos, alinhados com a forte produção hortofrutícola principalmente do Sul país. No Egito, destacam-se subprodutos de citrinos e romã, enquanto na Tunísia o projeto incide em fluxos associados ao figo-da-índia, tomate e azeitona, culturas particularmente relevantes no contexto local.
Para além do benefício ambiental, esta abordagem permite criar cadeias de valor regionais ajustadas a cada território, reduzir custos associados à gestão de resíduos agroindustriais e gerar rendimento adicional para produtores e transformadores locais, promovendo modelos de economia circular adaptados às diferentes realidades da bacia mediterrânica
Estes subprodutos apresentam potencial para serem convertidos em frações de maior valor acrescentado, nomeadamente extratos ricos em compostos bioativos com aplicação em embalagens ativas, bem como fibras e polissacarídeos com capacidade para reforçar ou formar materiais biodegradáveis. Para além do benefício ambiental, esta abordagem permite criar cadeias de valor regionais ajustadas a cada território, reduzir custos associados à gestão de resíduos agroindustriais e gerar rendimento adicional para produtores e transformadores locais, promovendo modelos de economia circular adaptados às diferentes realidades da bacia mediterrânica.
Que tipo de testes no terreno serão realizados pelos parceiros do Egito e da Tunísia e que indicadores serão decisivos para validar a eficácia das novas embalagens?
Os testes no terreno serão realizados na Tunísia, em condições próximas da aplicação real, utilizando modelos alimentares representativos das cadeias locais e de contextos logísticos típicos da região mediterrânica. Foram já identificados parceiros locais no terreno, nomeadamente produtores, que estarão envolvidos na aplicação e acompanhamento das soluções desenvolvidas.
Estes testes incluem a aplicação de revestimentos ativos e/ou materiais de embalagem a alimentos perecíveis, seguida da sua avaliação durante o armazenamento em condições controladas, nomeadamente ao nível de temperatura, humidade e duração do armazenamento.
Os indicadores decisivos para validar a eficácia das novas embalagens incluem a extensão da vida útil dos alimentos, a capacidade de reduzir ou retardar o crescimento de microrganismos associados à deterioração, a manutenção da qualidade físico-química dos produtos ao longo do tempo e a estabilidade e integridade dos materiais de embalagem. Sempre que aplicável, será igualmente avaliada a aceitação sensorial, de modo a confirmar que as soluções não introduzem alterações indesejáveis nos alimentos. Estes testes são essenciais para demonstrar a robustez das soluções em contextos climáticos e logísticos distintos.
À medida que avançam para a formulação dos revestimentos antimicrobianos, quais são, neste momento, as principais preocupações em termos de segurança alimentar e estabilidade dos materiais?
A segurança alimentar e a estabilidade dos materiais têm sido preocupações centrais desde a fase de conceção do projeto. Sabemos que alguns compostos naturais, apesar da sua eficácia antimicrobiana ou antioxidante, podem introduzir sabores ou odores indesejáveis nos alimentos. Por esse motivo, foi adotada uma abordagem criteriosa na seleção dos subprodutos mediterrânicos, privilegiando extratos que combinem eficácia funcional com um perfil sensorial potencialmente neutro.
Os extratos selecionados são purificados e avaliados em diferentes condições de concentração e incorporação, de forma a garantir que a sua ação ocorre predominantemente na interface embalagem–alimento, minimizando fenómenos de migração excessiva e reduzindo o risco de impacto direto no sabor ou aroma dos alimentos. Além disso, para extratos concentrados são realizados estudos de toxicidade para garantir que os novos ingredientes estão isentos de qualquer toxicidade e cumprem os padrões regulamentares assegurando total segurança.
Do ponto de vista da segurança alimentar, todo o desenvolvimento é realizado em conformidade com a legislação europeia aplicável a materiais em contacto com alimentos, incluindo a realização de ensaios de migração global e específica, a avaliação do perfil de substâncias relevantes e, sempre que necessário, avaliações toxicológicas. Paralelamente, são conduzidos estudos de estabilidade para assegurar que os materiais mantêm o seu desempenho e segurança ao longo da vida útil prevista.
O trabalho em curso procura garantir que os revestimentos antimicrobianos desenvolvidos contribuem efetivamente para aumentar a durabilidade e a segurança dos alimentos, sem comprometer a qualidade sensorial nem a confiança do consumidor, que são aspetos essenciais para a aceitação destas soluções no mercado
Em síntese, o trabalho em curso procura garantir que os revestimentos antimicrobianos desenvolvidos contribuem efetivamente para aumentar a durabilidade e a segurança dos alimentos, sem comprometer a qualidade sensorial nem a confiança do consumidor, que são aspetos essenciais para a aceitação destas soluções no mercado.
O NOVAPACK contribui para vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Há algum ODS em que considere que o impacto do projeto possa vir a ser particularmente significativo?
O NOVAPACK contribui para vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mas é expectável que o impacto seja particularmente significativo no ODS 12 – Produção e Consumo Sustentáveis. O projeto promove a valorização de subprodutos agroalimentares, a redução do desperdício alimentar e o desenvolvimento de alternativas aos plásticos de origem fóssil, integrando princípios de economia circular ao longo da cadeia de valor.
O NOVAPACK contribui para vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mas é expectável que o impacto seja particularmente significativo no ODS 12 – Produção e Consumo Sustentáveis
Adicionalmente, o projeto contribui para o ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, ao melhorar a conservação de alimentos perecíveis e reduzir perdas pós-colheita, especialmente relevantes em regiões com cadeias logísticas mais vulneráveis. Existe ainda um contributo claro para o ODS 13 – Ação Climática, ao reduzir impactos ambientais associados ao desperdício alimentar e à gestão inadequada de resíduos de embalagem. Em conjunto, estes contributos reforçam a sustentabilidade ambiental, económica e social das regiões mediterrânicas envolvidas.
Olhando para os próximos dois anos, que metas considera mais desafiantes para garantir a implementação das soluções desenvolvidas a nível industrial?
Nos próximos dois anos, as metas mais desafiantes passam por transformar soluções desenvolvidas em contexto de investigação em materiais tecnicamente robustos, reprodutíveis e economicamente viáveis. Um dos principais desafios será garantir a consistência e padronização dos extratos naturais, tendo em conta a variabilidade inerente aos subprodutos agrícolas, influenciada por fatores sazonais e regionais.
Nos próximos dois anos, as metas mais desafiantes passam por transformar soluções desenvolvidas em contexto de investigação em materiais tecnicamente robustos, reprodutíveis e economicamente viáveis
Outro desafio importante prende-se com a validação da segurança alimentar e da estabilidade dos materiais ao longo da sua vida útil, assegurando conformidade com o enquadramento regulamentar aplicável. Paralelamente, será essencial demonstrar a compatibilidade das soluções com processos industriais existentes, incluindo a sua aplicação em escala piloto, de modo a reduzir riscos na transição para escala industrial.
Neste contexto, a integração de startups e parceiros industriais no consórcio assume um papel decisivo, ao permitir a incorporação de know-how produtivo, a validação de processos em ambiente piloto e a adaptação das soluções às exigências reais da indústria. Esta articulação facilita a transferência de conhecimento, acelera a maturidade tecnológica das soluções desenvolvidas e cria um percurso mais sólido para a sua integração progressiva em contexto industrial.
O objetivo final é alcançar soluções que não sejam apenas tecnologicamente eficazes, mas que apresentem um caminho claro para adoção industrial, com potencial de implementação progressiva em diferentes contextos da bacia mediterrânica.




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