Da perceção à realidade: o desafio de produzir alimentos em Portugal e na Europa
- Mar 17
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Torna-se cada vez mais evidente que a transição agrícola europeia levanta questões estruturais que não podem ser ignoradas.
Nos últimos anos, a agricultura passou a ocupar um lugar cada vez mais central no debate público europeu. Alterações climáticas, sustentabilidade ambiental, segurança alimentar, inovação tecnológica ou autonomia estratégica são hoje temas incontornáveis quando falamos do futuro da produção alimentar.
Ao mesmo tempo, cresce também o escrutínio público sobre a forma como os alimentos são produzidos. A sua origem, o impacto ambiental da agricultura ou o uso de tecnologia no campo são temas que entram cada vez mais nas conversas dos consumidores – muitas vezes acompanhados por ideias propagadas com base em mitos sobre o que realmente acontece no momento da produção. E se é verdade que não é novo o desfasamento sentido entre a realidade do campo e as prateleiras de supermercado, este é um desafio que ainda está longe de estar resolvido.
A equação, não sendo simples, levanta uma questão clara: como garantir uma agricultura simultaneamente sustentável, competitiva e capaz de continuar a alimentar a Europa?
Durante a última década, o debate político europeu tem sido fortemente marcado por metas ambientais ambiciosas – da estratégia Farm to Fork, com uma proposta de redução na utilização de substâncias ativas na proteção das culturas, passando pela crescente exigência regulatória em matéria de sustentabilidade – são muitos os objetivos, que, procurando responder legitimamente às preocupações da sociedade, refletem também a necessidade de tornar os sistemas alimentares mais resilientes e capazes de responder aos inúmeros desafios.
No entanto, ao mesmo tempo que estas metas ganham forma no plano político, torna-se também cada vez mais evidente que a transição agrícola europeia levanta questões estruturais que não podem ser ignoradas. A redução do número de soluções disponíveis para proteção das culturas, o aumento significativo dos custos de produção nos últimos anos, a volatilidade geopolítica que afeta cadeias de abastecimento globais e a crescente concorrência internacional de países que operam sob regimes regulatórios distintos, colocam pressão adicional sobre a competitividade da agricultura europeia.
É neste ponto que o debate encontra uma nova dimensão: a sustentabilidade ambiental não pode ser dissociada da sustentabilidade económica da produção agrícola.
Se a Europa pretende manter um setor agrícola forte, inovador e capaz de garantir abastecimento alimentar estável, será essencial assegurar que os agricultores dispõem das ferramentas necessárias para produzir – desde acesso à inovação tecnológica até enquadramentos regulatórios equilibrados que permitam conciliar ambição ambiental com viabilidade produtiva.
A própria Comissão Europeia parece hoje reconhecer essa necessidade de reequilíbrio. As recentes iniciativas de simplificação administrativa como é o caso do pacote OMNIBUS e a nova “Visão para a Agricultura e Alimentação” refletem uma tentativa de responder às preocupações expressas pelos agricultores em vários Estados-Membros e de reforçar a competitividade do setor num contexto global cada vez mais exigente. Mas… serão suficientes para responder aos desafios estruturais que a agricultura europeia enfrenta?
Em Portugal, estas questões assumem igualmente grande relevância. Estudos recentes – como o Estudo de Impacto CropLife Portugal 2025 – apontam para potenciais impactos significativos no rendimento agrícola nacional, caso se mantenha o enquadramento regulatório europeu sem a devida adaptação à realidade agrícola desbloqueando, desta forma, a entrada de novas tecnologias e de inovação no contexto da proteção das culturas agrícolas nacionais e europeias. Mais do que um debate setorial, estamos perante decisões que podem influenciar diretamente a estrutura produtiva agrícola, o emprego nas zonas rurais e até a capacidade exportadora de algumas das principais fileiras agroalimentares.
Ao mesmo tempo, persiste uma realidade que continua a marcar o debate público: a distância entre aquilo que muitos consumidores acreditam sobre a produção de alimentos e a realidade vivida diariamente no campo. Num contexto em que os cidadãos europeus estão cada vez mais atentos à sustentabilidade, à segurança e à origem dos alimentos, reforçar a literacia alimentar e aproximar consumidores da realidade da produção torna-se uma tarefa essencial.
E é precisamente neste cruzamento entre políticas europeias, perceção pública e realidade agrícola que surge a necessidade de um debate mais informado e equilibrado sobre o futuro da produção alimentar: exatamente o que propõe o II Congresso CropLife Portugal, que terá lugar no próximo dia 12 de março, em Lisboa, sob o mote “Mitos Não Alimentam”.
Num momento em que a agricultura voltou ao centro do debate europeu, discutir factos, esclarecer perceções e refletir sobre o equilíbrio entre sustentabilidade, inovação e competitividade torna-se essencial.
Porque o futuro da agricultura não se constrói apenas com ambição política – constrói-se com conhecimento, diálogo e uma compreensão clara dos desafios que agricultores e sistemas alimentares enfrentam diariamente.




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