top of page

BREADCRUMB: o projeto europeu que quer dar lugar aos alimentos “imperfeitos

8 hours ago
3 min read

Todos os anos, alimentos próprios para consumo ficam pelo caminho por não cumprirem critérios de tamanho, forma ou aparência. Um projeto europeu, que conta com a participação da MC, está a estudar o impacto destas exigências e a desenvolver soluções para reduzir o desperdício alimentar ao longo da cadeia de valor.




Imaginemos uma cenoura demasiado pequena. Saudável, mas pequena. E outra com uma forma irregular. Outra ainda que se divide em duas raízes. Estão “boas” para consumo mas, na verdade, podem nunca chegar às prateleiras dos supermercados “simplesmente” por não corresponderem aos padrões de comercialização estabelecidos. Ou seja, o problema não está necessariamente na qualidade ou na segurança alimentar, mas nas características que produtores, indústria, retalhistas e consumidores consideram aceitáveis.


Para tentar conciliar as exigências do mercado com a necessidade de reduzir o desperdício alimentar, nasceu o BREADCRUMB, um projeto europeu financiado pelo programa Horizon Europe, que decorre desde janeiro de 2024 até dezembro de 2026. A iniciativa, que reúne 21 entidades de sete países (Bélgica, Itália, Dinamarca, Eslovénia, Espanha, Alemanha e Portugal), procura precisamente perceber em que medida as normas de comercialização contribuem para a perda de alimentos e o que pode ser feito para contrariar esta realidade.

A MC, empresa do grupo Sonae responsável pela cadeia de supermercados Continente, participa no consórcio como único retalhista europeu, levando para a investigação a experiência de uma empresa que opera diretamente na ligação entre produtores, fornecedores e consumidores. Segundo os promotores, o objetivo é contribuir para o desenvolvimento de orientações e soluções que permitam reduzir o desperdício alimentar sem, obviamente, comprometer a qualidade, a segurança dos produtos ou a confiança de quem os compra.



O peso dos padrões comerciais


Não parece haver grandes dúvidas de que as normas de comercialização desempenham um papel importante no funcionamento do mercado alimentar. Estabelecem critérios de classificação, apresentação e qualidade, facilitando as transações entre os diferentes operadores. No entanto, quando determinadas características estéticas se tornam condições de acesso ao mercado, alimentos perfeitamente seguros podem acabar excluídos dos circuitos habituais de venda.


Para compreender a dimensão do problema, o BREADCRUMB analisou cinco grandes categorias alimentares, desde frutas e hortícolas, carne, ovos, cereais e peixe, através de 16 estudos de caso realizados em diferentes países europeus. Deste trabalho, que envolveu empresas, centros de investigação, associações setoriais, organizações da sociedade civil e consumidores, o resultado que provavelmente mais salta à vista é a identificação de mais de 1.350 normas públicas e privadas de comercialização alimentar na União Europeia. Um levantamento que permitiu compreender a diversidade de requisitos existentes e analisar de que forma podem influenciar o desperdício ao longo da cadeia de abastecimento.


Mas o projeto não se limita a estudar as regras. Procura também perceber como são interpretadas pelas empresas, que consequências têm para os produtores e de que forma as preferências dos consumidores condicionam a comercialização dos alimentos.



Cenouras imperfeitas, novas oportunidades


Voltemos ao caso das cenouras, que, de resto, ilustra bem esta realidade. No caso analisado, a investigação identificou que os requisitos privados relacionados com o tamanho e a ausência de deformações relevantes podem dificultar a comercialização de cerca de um quarto das cenouras cultivadas pelos canais habituais. Os estudos sobre o comportamento dos consumidores revelaram também que cenouras bifurcadas ou com deformações acentuadas são frequentemente consideradas pouco práticas, o que contribui para a sua rejeição no momento da compra.


No entanto, a investigação demonstrou que a comunicação pode fazer a diferença. Mensagens como “Ajude a reduzir o desperdício” ou “Qualidade além da aparência” podem influenciar as decisões de compra. A comercialização conjunta de cenouras de diferentes tamanhos, acompanhada de sugestões de utilização e receitas, surge igualmente como uma possibilidade para criar novos mercados para estes produtos.


A questão deixa, assim, de ser apenas como reduzir os critérios de seleção e passa também por encontrar formas de valorizar alimentos que não correspondem aos padrões convencionais.



Da investigação às prateleiras


Mas identificar o problema é apenas uma parte do caminho. A outra, provavelmente a mais difícil, é conseguir que os alimentos que hoje ficam pelo caminho encontrem uma alternativa. A MC tem um papel ativo neste trabalho já que participa no desenvolvimento de uma classificação dos chamados alimentos “subótimos”, na elaboração de orientações para os diferentes operadores da cadeia alimentar e num estudo de caso português dedicado às frutas e hortícolas. No fundo, trata-se de perceber que alternativas existem para produtos que, apesar de seguros e próprios para consumo, acabam por ter dificuldades em encontrar lugar no mercado. E é também essa dimensão que estará em destaque a 5 de novembro, em Bruxelas, quando o BREADCRUMB apresentar os resultados finais de quase três anos de investigação. O projeto, cuja conclusão está prevista para dezembro, deverá deixar recomendações para empresas e decisores políticos, procurando encontrar um equilíbrio entre as exigências comerciais, a segurança alimentar e a necessidade de reduzir o desperdício.







 
 
 

Comments


bottom of page