top of page

Quase 58 quilos de alimentos vão para o lixo a cada segundo em Portugal

8 hours ago
6 min read

Portugal desperdiça 1,82 milhões de toneladas de alimentos por ano. O desperdício começa sobretudo nas famílias e tem custos económicos e ambientais. Maria Tolentino, da Too Good To Go, aponta hábitos e políticas públicas como parte da solução





Uma refeição esquecida no frigorífico, fruta que não tem o aspeto considerado perfeito ou um produto que ultrapassa uma determinada data podem parecer situações isoladas, mas, somadas, representam um problema de grande dimensão em Portugal.


O país desperdiça cerca de 1,82 milhões de toneladas de alimentos por ano, o equivalente a aproximadamente 58 quilos de comida por segundo, segundo os dados oficiais mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados pela Too Good To Go (TGTG).

O desperdício alimentar tem consequências que vão muito além da comida que acaba no lixo. Representa uma perda económica para as famílias e para a sociedade, implica o desperdício de água, solo e outros recursos utilizados na produção dos alimentos e está associado a emissões de gases com efeito de estufa.


A propósito Dia Internacional da Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar, assinalado terça-feira, 29 de setembro, a TGTG chama a atenção para a dimensão do fenómeno e para a necessidade de atuar ao longo de toda a cadeia alimentar.


Seguem-se o retalho, com 235.933 toneladas, e o setor HORECA, com 206.535 toneladas.


A dimensão do fenómeno pode ser difícil de visualizar, mas de acordo com as equivalências apresentadas pela plataforma, o desperdício produzido no espaço de uma hora seria suficiente para encher entre oito e dez camiões de mercadorias.


Para Maria Tolentino, Country Director da Too Good To Go em Portugal, a dimensão do problema obriga a uma resposta que não se limite a um único setor. “O combate ao desperdício alimentar é, por isso, uma responsabilidade partilhada”, afirma, sublinhando que a solução depende “do envolvimento de toda a cadeia alimentar e das escolhas que fazemos diariamente”.


Em declarações ao SOL, a responsável considera que a mudança deve acontecer tanto nas empresas como dentro de casa. “Pequenas mudanças na forma como planeamos as compras, interpretamos as datas de validade ou conservamos os alimentos podem fazer uma grande diferença”, defende.


Frutas e legumes estão entre os alimentos mais desperdiçados


Entre os produtos mais vulneráveis ao desperdício encontram-se os alimentos frescos, sobretudo frutas e legumes. A sua maior perecibilidade e menor vida útil tornam-nos particularmente suscetíveis de serem descartados.


Há ainda fatores relacionados com a aparência. Frutas e legumes podem ser rejeitados na origem ou não chegar às prateleiras por não corresponderem aos padrões estéticos habituais. Também os consumidores podem deixar de escolher produtos com formas, tamanhos ou marcas diferentes do que consideram ideal.


As condições meteorológicas podem agravar o problema. Períodos de calor extremo aceleram a maturação e deterioração de alguns alimentos, dificultando a sua conservação e comercialização.


Maria Tolentino considera, por isso, importante "mudar a perceção de que um alimento tem de ser perfeito na aparência para ter valor” uma vez que "uma fruta ou um legume com uma forma, tamanho ou aspeto diferente pode continuar a ser perfeitamente bom e saboroso”, acrescenta a responsável.


A mudança de hábitos pode também passar pelo aproveitamento destes produtos. “Na Too Good To Go, ajudamos precisamente a dar uma segunda oportunidade a estes alimentos”, explica Maria Tolentino, referindo que muitos acabam por ser integrados nos chamados Surprise Bags dos parceiros da plataforma.



Desperdício alimentar também é desperdício de água e solo


Quando um alimento é desperdiçado, não se perde apenas o produto final. Perdem-se também os recursos utilizados para o produzir.


Com base na sua calculadora ambiental, a plataforma estima que o atual ritmo de desperdício alimentar em Portugal corresponde a mais de 46.980 litros de água desperdiçados por segundo. Num único dia, seriam mais de quatro mil milhões de litros.


A TGTG estima ainda que o desperdício esteja associado a 156,6 quilos de CO₂ equivalente por segundo e que, a cada hora, a área de terreno agrícola utilizada para produzir comida que acaba desperdiçada corresponda a cerca de 81 campos de futebol.


O que pode fazer cada consumidor para reduzir o desperdício

Para Maria Tolentino, uma das mudanças mais simples passa por compreender melhor as datas indicadas nas embalagens.


Um estudo da Too Good To Go citado pela responsável na entrevista concluiu que 38% dos portugueses podem estar a deitar fora alimentos ainda em bom estado devido à confusão com os prazos de validade. O mesmo estudo indica que 30% dos consumidores não sabem interpretar a expressão “consumir de preferência antes de”.


A distinção é importante: a indicação “consumir até” corresponde a um limite de segurança alimentar e deve ser respeitada. Já “consumir de preferência antes de” está relacionada com a durabilidade mínima e com a qualidade ideal do produto.


“O hábito mais básico, eficaz e com impacto imediato é aprender a distinguir as etiquetas de validade nas embalagens: a diferença crucial entre ‘Consumir até’ e ‘Consumir de preferência antes de’”, explica Maria Tolentino.


Ao SOL a responsável alerta, contudo, para a diferença entre segurança alimentar e qualidade do produto. A data “consumir até” deve ser rigorosamente respeitada. Já depois da data de durabilidade mínima, quando indicada como “consumir de preferência antes de”, a avaliação do alimento pode ser feita através dos sentidos.


A Too Good To Go tem promovido, neste contexto, a iniciativa “Observar, Cheirar, Provar”, mas a avaliação sensorial não deve ser usada para ultrapassar uma data de “consumir até”.


“A iniciativa pretende combater uma lacuna de literacia alimentar” e incentivar os consumidores a avaliar os produtos de forma mais consciente, em vez de os descartarem automaticamente.


Além da leitura correta dos rótulos, Maria Tolentino aponta outros comportamentos simples. “Planear melhor as compras, aproveitar os alimentos que temos em casa, compreender as datas de validade e tomar decisões mais conscientes” são mudanças que podem contribuir para reduzir o desperdício.



Políticas públicas e cidadãos têm de atuar em conjunto

A Too Good To Go considera que a resposta não pode depender apenas da iniciativa individual. Para Maria Tolentino, as políticas públicas têm um papel fundamental, nomeadamente na definição de metas nacionais e na criação de condições e incentivos para empresas e cidadãos reduzirem o desperdício.


A responsável aponta os avanços relacionados com a Estratégia Nacional contra o Desperdício Alimentar como um sinal de que o tema ganhou importância institucional e defende que é necessária a passagem desse compromisso para medidas concretas e coordenadas.


“Trata-se de uma sinergia necessária e complementar”, diz Maria Tolentino, defendendo que as políticas públicas devem criar “o enquadramento, definir metas nacionais claras e criar as condições e os incentivos necessários para que empresas e cidadãos possam agir de forma mais eficaz”.


A responsável considera que a estratégia nacional é um passo positivo, mas sublinha a necessidade de implementação. “Esperamos agora que a estratégia possa ser implementada em breve, transformando este compromisso numa ação concreta e coordenada”, afirma.


Ao SOL a responsável aponta França como exemplo pelo enquadramento legislativo criado em 2016, enquanto Espanha aprovou legislação específica contra o desperdício alimentar, com uma hierarquia que privilegia a prevenção, seguida da redistribuição e do aproveitamento para consumo humano.


Mas para Maria Tolentino, mais do que copiar medidas de outros países, importa retirar uma lição mais ampla: “O principal ensinamento que podemos retirar destes países é a importância de criar uma estratégia clara, com prioridades bem definidas, que envolva toda a cadeia alimentar e facilite a adoção de novos hábitos por parte de empresas e cidadãos.”


Sete anos de combate ao desperdício em Portugal


A Too Good To Go assinala sete anos de atividade em Portugal e afirma ter ultrapassado os 8,2 milhões de Surprise Bags salvas, através de uma rede de mais de 5.000 negócios parceiros e de uma comunidade de cerca de três milhões de utilizadores.


Segundo os dados fornecidos pela empresa, a atividade em Portugal permitiu ainda evitar a emissão de cerca de 22 mil toneladas de CO₂ e o desperdício de seis mil milhões de litros de água, além de gerar uma poupança superior a 60 milhões de euros para os utilizadores.


Para Maria Tolentino, estes resultados mostram que a tecnologia pode ser uma ferramenta para aproximar negócios com excedentes de consumidores interessados em aproveitá-los.


“A tecnologia tem um papel fundamental na resposta aos grandes desafios da sociedade, e o desperdício alimentar não é exceção”, afirma.


A responsável explica que a aplicação “facilita a ligação entre negócios com excedentes alimentares e pessoas que pretendem dar uma segunda oportunidade a esses alimentos”, mostrando como a inovação pode ajudar a alterar comportamentos.


Mas Maria Tolentino sublinha que a tecnologia, por si só, não é suficiente. “Nenhuma estratégia ou legislação, por si só, consegue mudar hábitos”, sentencia.






 
 
 

Comments


bottom of page