O enorme desafio do desperdício alimentar

Sustentabilidade. Cada português produz anualmente 130 quilos de lixo alimentar. Alteração de comportamentos é determinante e tem de começar nas escolas, exigindo mudanças no ensino


Expresso


Na semana em que, em Glasgow, os líderes dos países que assinaram o Acordo de Paris — que impõe a redução de 50% das emissões de CO2 até 2030 — procuram soluções para acelerar o processo, o tema da sustentabilidade ambiental volta a estar em cima da mesa. Garantir que os ecossistemas alimentares mantêm o equilíbrio, combater as alterações climáticas, que têm um forte impacto nas cadeias alimentares agrícolas e nas espécies que consumimos, e defender o comércio justo de produtos e serviços oriundos de sociedades mais desfavorecidas são três pilares fundamentais para que a sustentabilidade seja uma realidade.

A economia circular faz parte deste caminho e procura, desde logo, reutilizar todo o tipo de produtos, materiais e alimentos, de forma a evitar o desperdício. “É preciso mudar mentalidades e comportamentos”, aponta Rita Rodrigues. A diretora de Relações Institucionais da Deco Proteste, que participou esta semana na conferência “Parar para Pensar: Sustentabilidade”, exemplifica: “Cada português produz 130 quilos de lixo alimentar”, números que facilmente podem ser reduzidos se os consumidores “planearem melhor as suas compras e apostarem numa alimentação mais saudável, criativa e que reaproveite o que têm em casa”.



Mas o desperdício alimentar tem ainda mais expressão nos supermercados e na grande distribuição. Produtos frescos que todos os dias ficam nas prateleiras e que não podem ser vendidos ou outros que chegam ao fim do prazo de validade e que têm que ser retirados representam toneladas de alimentos desperdiçados diariamente. Atualmente, quase todas as insígnias da distribuição introduziram práticas que permitem minimizar o desperdício, reaproveitando os frescos para sopas ou oferecendo descontos nos produtos em final de validade. “O desperdício alimentar é trabalhado logo na cadeia de abastecimento”, explica Isa Cardoso. Para a consultora de sustentabilidade no Lidl Portugal, as empresas têm a responsabilidade de implementar estas práticas, mas também de ‘ensinar’ os consumidores a serem mais sustentáveis.


São crescentes os desafios de sustentabilidade e há a responsabilidade de manter o equilíbrio do ecossistema e das próprias espécies. No mar, por exemplo, cerca de 300 mil baleias são mortas acidentalmente, a cada ano, algumas devido às redes de pesca, mas uma boa parte devido à ingestão de plásticos que se acumulam no oceano. Sérgio Faias considera que a preservação do sector das pescas dependerá da sustentabilidade dos recursos marinhos disponíveis. “Verifica-se uma evolução muito positiva na consciencialização dos profissionais da pesca, que reconhecem que o futuro da sua profissão só poderá ser garantido com o estabelecimento de regras claras sobre as quantidades e as espécies a capturar”, diz o presidente do conselho de administração da Docapesca. Por outro lado, refere, o trabalho conjunto e a autorregulação do sector “estão a permitir implementar medidas mais sustentáveis, baseadas na qualidade e na valorização dos produtos, com vista a obter maior retorno económico com menor esforço de pesca”. A indústria conserveira, que tem grande expressão nacional, é disso exemplo. Segundo Sérgio Faias, esta indústria tenderá a criar ciclos de produção mais curtos, geograficamente mais próximos, reduzindo a pegada carbónica da atividade.


No final da cadeia, mas não menos importante, está a reciclagem. “É fundamental na economia circular”, diz Rosa Monforte. A diretora-geral da ERP Portugal, entidade que faz a gestão da recolha de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE), recorda que grande parte dos materiais usados nestes produtos podem ser reintroduzidos na cadeia de valor, prolongando o seu ciclo de vida e reduzindo a exploração de matérias-primas. Mas para que o hábito de reciclar esteja presente na consciência de todos os cidadãos “é preciso educar e sensibilizar”, aponta.

O volume deste tipo de resíduos recolhido na rede própria da ERP Portugal cresceu, em 2020, cerca de 3,5%, quando comparado com o ano anterior, tendo muitos portugueses aproveitado para ‘limpar’ as suas casas no período de confinamento. A grande questão é, diz Rosa Monforte, onde foram colocados esses resíduos? “Muitos não foram entregues nos canais corretos, mas deixados ao lado dos caixotes de lixo indiferenciado ou junto a ecopontos e desviados para canais paralelos, acabando por não ser devidamente descontaminados e reciclados.”



ENSINO COM IMPACTO, PRECISA-SE


A pandemia permitiu concluir aquilo que, no fundo, professores, alunos e sociedade em geral há muito sabiam. O sistema educativo está obsoleto e não acompanhou a evolução do mundo nas últimas décadas. “O sistema está 150 anos atrasado”, aponta Tim Vieira, um dos oradores convidados para a conferência “Parar para Pensar: Educação”, que também decorreu esta semana. Na opinião do fundador da Brave Generation Academy, nas últimas três décadas o ensino não teve qualquer impacto nos empresários. Jorge Carvalho, secretário Regional de Educação, Ciência e Tecnologia, acrescenta que é preciso formar e preparar os professores para que possam dar uma resposta mais efetiva às necessidades dos alunos, mas é também importante abrir a escola às empresas, para que os alunos possam conhecer, desde cedo, a realidade do mundo empresarial. “É preciso criar metodologias que ajudem os alunos a encontrar projetos de vida, e aí a ligação às empresas é fundamental”, reforça.

Tirar partido das ferramentas tecnológicas é outro desafio que Marta Pimentel, diretora-executiva na Nova SBE, destaca. “Hoje existe uma grande diversidade de ferramentas de ensino e é preciso usá-las não só com os alunos em idade escolar, mas também para a requalificação de adultos.” Tim Vieira questiona: “Porque não usar as escolas que estão fechadas à noite para o reforço de competências dos mais velhos?” O mix entre o ensino presencial e o ensino remoto pode ser igualmente vantajoso em todos os níveis escolares. “Precisamos de um ensino mais interativo e menos expositivo”, diz Jorge Carvalho, enquanto Tim Vieira acrescenta que o ensino deve estimular o “pensamento crítico” e “ao ritmo de cada um”.



Mudança de comportamentos começa na escola


Sustentabilidade e educação foram os temas das conferências “Parar para Pensar” desta semana, incluídas no ciclo de oito debates que juntam o Expresso e a Deco Proteste e que contam com o patrocínio da Google. Sérgio Faias, Isa Cardoso, Rosa Monforte e Rita Rodrigues juntaram-se à jornalista Nelma Serpa Pinto para antecipar desafios e tendências na sustentabilidade. A mudança de comportamentos, chave para encarar esta temática, que inclui as vertentes social, económica e ambiental, é, na opinião dos oradores, uma responsabilidade de todos. Mas para atingir esta meta a educação é fundamental. Outro tema que mereceu a troca de ideias entre Marta Pimentel, Jorge Carvalho e Tim Vieira, convidados moderados pela jornalista Marta Atalaya.



|Fonte: Expresso, 15 de Novembro 2021

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