"Não é admissível que um terço do que é produzido acabe no desperdício"

Nas celebrações do Dia Mundial contra o Desperdício Alimentar, a presidente da Federação Portuguesa de Bancos Alimentares urge para as diversas vertentes pelas quais o problema se pode manifestar e defende que muito passa pela formação e educação da populações. Jorge Moreira da Silva, presidente da Plataforma para o Crescimento Sustentável, vê o cidadão como o principal responsável pelo combate ao desperdício e rejeita o papel de "assistencialismo" do Estado.


JN



Numa ação do movimento "Unidos contra o Desperdício" na tarde desta quinta-feira, no Pavilhão de Portugal, em Lisboa, Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares (FPBA), denunciou o fenómeno crescente em Portugal e no mundo. No seu entender, "hoje em dia, o desperdício alimentar não tem qualquer tipo de lugar nas nossas sociedades".


Para a presidente da FPBA, o problema ultrapassa o mero caráter ambiental que muitas vezes lhe é dado, tratando-se de um "problema económico, mas também social". Apesar disso, salienta que tudo é possível "recuperar e aproveitar" e afirma que "muitas pessoas desperdiçam apenas por não terem consciência de que o fazem em tão grandes quantidades". A compra excessiva de produtos para consumir em casa é "uma das principais causas desse desperdício", diz.


"Não é admissível que um terço de tudo aquilo que é produzido acabe no desperdício", sublinha Isabel Jonet.


Jorge Moreira da Silva, com quem partilhou o painel, defende que o problema deve ser tratado não apenas na origem, pelos produtores alimentares, mas também pela "ótica da eficiência", ou seja, pelas ações dos cidadãos que consomem os alimentos diariamente. Entende que o cidadão deve estar no centro da ação e no combate contra o desperdício e não os comportamentos "assistencialistas" do Estado.


Apesar desta perspetiva, o antigo ministro do Ambiente do PSD e presidente da Plataforma para o Crescimento Sustentável (PCS) não descura a importância de uma intervenção pública para combater o problema "à semelhança do que fez com os sacos de plástico nos supermercados", mas que "esta não pode ter o trabalho todo".


Sensibilização e informação

Naquela que foi também a celebração do Dia Mundial contra o Desperdício Alimentar, os dois intervenientes concordaram que acima de tudo seria necessário educar a população quanto ao tema. "Ninguém irá mudar os seus comportamentos se não tiver noção do problema que está a enfrentar", afirma Moreira da Silva.


Isabel Jonet saudou a perspetiva do presidente da PCS e salientou a "necessidade de sensibilizar e consciencializar as populações". Acrescenta que o "Estado deve ter uma perspetiva facilitadora e não dificultar o processo de combate ao desperdício, nomeadamente ao nível das empresas alimentares".


Filipe Mello e Castro, 28 anos, fundador do movimento "Unidos contra o Desperdício", é dono de uma empresa na área da comunicação e promoção de eventos. Foi também uma vítima da quebra que o setor atravessou durante o período pandémico, momento durante o qual Isabel Jonet lhe sugeriu que se dedicasse a esta causa.


Plataformas de apoio


Começou por estabelecer os contactos necessários com parceiros para que o movimento fosse criado, nomeadamente com Eduardo Oliveira Sousa, presidente da Confederação de Agricultores Portugueses, a Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar, com a Câmara Municipal de Lisboa, em 2020, quando José Sá Fernandes era vereador do Ambiente, e com o Banco Alimentar.


Para Filipe Mello e Castro, "enquanto as pessoas acharem que este é um problema muito distante não vamos conseguir acabar com o desperdício alimentar", mas a solução pode passar por plataformas como a sua. O "Unidos contra o Desperdício" é, acima de tudo, um "projeto de comunicação", afirma, e tem a capacidade de colocar os seus parceiros que recolhem e tratam o desperdício alimentar em contacto com empresas, restaurantes, hotéis e produtores que tenham desperdício que queiram ver aproveitado.


Além disso, a plataforma digital oferece ainda informação atualizada e dados sobre o desperdício alimentar em Portugal e no mundo, juntamente com receitas culinárias que aproveitam todos os alimentos que possam ser aproveitados e dicas simples para que cada pessoa nos seus hábitos diários possa ajudar no combate ao problema.


|Fonte: JN, 30 de Setembro 2022

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