Humanidade começa a viver de crédito ambiental cada vez mais cedo

Esgotamos os recursos que o planeta pode renovar durante o ano inteiro já a 28 de julho — mais cedo do que em 2021. “A humanidade continua a aumentar o seu défice ecológico anual”, conclui a Global Footprint Network, organização responsável por estimar o Dia da Sobrecarga da Terra todos os anos


Expresso



Sem surpresas, o Homem esgota cada vez mais cedo os recursos naturais que a Terra consegue regenerar para cada ano. Em 2022, vamos acionar o ‘cartão de crédito’ ambiental do planeta a 28 de julho. Esta data marca o Dia da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day) e foi anunciada neste domingo, Dia Mundial do Ambiente, pela Global Footprint Network (GFN), uma organização dedicada à gestão de recursos naturais e ao impacto das alterações climáticas.


Isto significa que a partir de 28 de julho o planeta entra em défice ecológico e começa a gastar recursos que só deveriam ser utilizados a partir do início do próximo ano. “A humanidade utiliza atualmente mais de 75% do que aquilo que os ecossistemas do planeta conseguem regenerar”, adianta a GFN em comunicado. Por outras palavras, precisaríamos de “1,75 Terras” para conseguirmos satisfazer todas as nossas necessidades, porque a nossa pegada ecológica é muito superior à biocapacidade do planeta.


Em 2021, o Dia da Sobrecarga da Terra calhou a 29 de julho, o que significa que este ano a humanidade esgota um dia mais cedo a área produtiva disponível do planeta para regenerar recursos naturais e absorver resíduos. A principal exceção, nas últimas décadas, verificou-se no ano em que a pandemia começou. A pegada ecológica da humanidade contraiu-se — graças à menor utilização de recursos devido aos confinamentos — e o Dia da Sobrecarga da Terra foi empurrado para 22 de agosto em 2020. Em 15 anos que não era assinalado tão tarde.


“Como a data [deste ano] indica, a humanidade continua a aumentar o seu défice ecológico anual, dois anos após as reduções de uso de recursos induzidas pela pandemia terem empurrado excecional e temporariamente a data para trás em 24 dias”, nota a organização que começou a calcular o Dia da Sobrecarga da Terra em 1970.



EVOLUÇÃO DO DIA DE ENTRADA EM DÉFICE ECOLÓGICO EM PORTUGAL

Em número de dias





Desde então, a humanidade tem entrado em défice ecológico cada vez mais cedo — com a exceção do primeiro ano da pandemia. De 30 de dezembro, há 52 anos, passou para 28 de julho, agora em 2022. “Mais de 50 anos de sobrecarga global levaram a um mundo em que a seca agravada e a insegurança alimentar são exacerbadas por temperaturas anormalmente quentes”, lamenta a Global Footprint Network.


A associação lembra, ainda, que existem muitas formas de reverter o défice ecológico e apoiar a regeneração biológica. “Por exemplo, passar para redes inteligentes e de maior eficiência nos nossos sistemas elétricos empurraria a data 21 dias. A redução do desperdício alimentar para metade atrasaria a data em 13 dias. O cultivo de árvores com outras culturas no mesmo terreno, também conhecido como consorciação de culturas, atrasaria a data 2,1 dias, entre muitos outros exemplos”.


Além de determinar o Dia da Sobrecarga da Terra para toda a humanidade, a Global Footprint Network também o faz todos os anos para cada país. No caso de Portugal esta data calhou a 7 de maio, ao fim de apenas o 127.º dia de 2022. Há quase um mês que entramos em dívida ambiental e, tal como o resto da humanidade, de ano para ano, estamos a gastar cada vez mais cedo os recursos naturais regeneráveis pelo planeta.


|Fonte:Expresso, 06 de Junho 2022

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