Hortas comunitárias em altura: o futuro da agricultura urbana vertical, em Lisboa

A ideia não é nova, mas a forma de concretizar, sim. As primeiras hortas verticais rotativas foram projetadas pela Upfarming e vão ser colocadas em Alvalade.


A Mensagem


A equipa da Upfarming, que quer lutar contra o desperdício alimentar através da implementação de hortas verticais rotativas comunitárias. Foto: Orlando Almeida

Ergueu-se uma torre nos jardins do Palácio Pimenta, Campo Grande, onde funciona o Museu de Lisboa. Uma torre atípica. Ali está ela, uma estrutura alta, de prateleiras coloridas com… plantas. “É um jardim arranha-céus”, diz Bruno Lacey, apontando para o céu cinzento até onde a torre parece chegar, no seu movimento quase impercetível de rotação. Manjericão, espinafre, salsa, hortelã, pak choi e alface crescem em altura. E cheiram!


Uma ideia nova, com muitos conceitos: cultivar em direção ao céu, sem químicos, fertilizantes ou pesticidas – é uma boa forma de se reduzir as emissões de gases de efeito estufa que provêm da produção alimentar, de se travar a perda da biodiversidade que dela também advém, de se combater o desperdício alimentar e de se evitar os chamados “desertos de comida”, áreas onde o acesso a fruta e a legumes frescos é limitado.


A primeira torre de agricultura vertical da Upfarming foi instalada no Museu de Lisboa. Foto: Orlando Almeida

Foi assim que a ideia começou. Bruno, que já era especialista em jardins verticais, pensou: porque não torres de agricultura vertical, capazes de suprir estes vazios com as suas prateleiras repletas de verde?


Há cerca de um ano, o atelier de arquitetura Parto, do qual Tiago Sá Gomes faz parte, foi desafiado pelo Museu de Lisboa para completar a exposição que percorria a História das hortas urbanas, dos tempos medievais aos dias de hoje.


“O museu propôs algo arrojado: lançar provocações de como é que, olhando para a informação que temos dos últimos 500 anos, se pode projetar o futuro”, diz Tiago. “O museu não tinha interesse em lançar uma utopia que não fosse exequível, a visão que eles queriam não era para daqui a 200 anos, estavam preocupados em falar sobre algo que pudesse ser possível daqui a 30 anos”.


Fotos: Orlando Almeida

Os 30 anos encurtaram-se com uma chamada de Tiago a Bruno: para eles, o futuro das hortas era igual ao das cidades, passava pela verticalidade. E, com uma campanha de crowdfunding, conseguiram, em menos de 24 horas, arrecadar 30 mil euros.


Margarida Villas-Boas, que conhecera Bruno por querer ter uma horta em casa, entrava então em cena para auxiliá-los a gerir o projeto, depois de anos a viver em Londres e a trabalhar na área da gestão. A primeira das torres ia ser instalada no jardim do Museu de Lisboa. Estavam lançadas as bases da Upfarming.




Tiago e Bruno reencontraram-se numa chamada em tempos de covid e levaram a sua ideia de criar hortas urbanas verticais avante. Margarida veio completar este “triângulo amoroso”, como a própria lhe chama. Foto: Orlando Almeida

Esta primeira experiência tem seis metros de altura e 22 prateleiras (cada uma com mais de 40 plantas – são quase 900 plantas em toda a torre). Roda lentamente (demora quatro horas a terminar um ciclo) e assim os vegetais têm todos a mesma exposição ao sol e à rega cíclica. A tecnologia vem de Singapura e a Upfarming é a primeira a importá-la para a Europa.


“A ideia é ter aqui um pequeno ecossistema”, diz Bruno. E um pequeno ecossistema que seja acessível a todos: a crianças ou a pessoas de mobilidade reduzida. “Que não seja só usado por cientistas, mas que esteja muito próximo daquilo que é o senso comum”, acrescenta Tiago.


Tornar a cidade comestível


A inovação não nasceu do nada. Lisboa é a primeira cidade europeia com estas hortas verticais rotativas, mas este futuro tem uma história. “Estamos sempre a revisitar tópicos passados”, diz Margarida.


É uma longa viagem das hortas conventuais, à formação das hortas dos tempos da muralha fernandina até às hortas como as que conhecemos hoje. Mas há ideias bem em voga nos dias que correm, que surgem com as hortas medievais. “A horta como um espaço de cura. A prática hortícola como terapêutica, que está muito na moda – o conceito do bem estar”, explica Margarida. Ideais que estão a regressar.



Tudo isto foi tido em conta pelo atelier Parto para a construção de possibilidades. E foram algumas as referências para se traçar futuros: nos anos 1940, os chamados jardins higiénicos que cumpriam principalmente uma função estética, foram ocupados por culturas que as pessoas, vindas dos meios rurais, estavam habituadas a comer – o campo entrava assim na cidade. “Isto mostra a vontade que existe de tornar a cidade comestível”, diz Tiago.


Fotografias de Ângela Correia – presentes na exposição – ilustram uma outra ideia fundamental para o trabalho dos arquitetos: a de ocupação do espaço disponível. Ao longo dos anos, foram muitos os terrenos ocupados para cultivo, sem que tivessem sido pensados para tal. “Serve como metáfora de como as hortas ocupam lugares que estão disponíveis”, acrescenta o arquiteto.




O atelier quis pensar as hortas no planeamento da cidade, tornando-as estruturas perenes e sólidas – e distinguindo hortas municipais de hortas comunitárias. “Numa horta municipal, existe uma delimitação muito clara entre os talhões, o que já não é verdade numa horta comunitária, onde se cria uma comunidade e os limites se dissolvem”, diz Tiago.

As hortas comunitárias não têm sebes. Não têm vedações. Qualquer um pode colher e interagir com elas. Um espaço aberto para toda a comunidade. Para os arquitetos, este era o sonho – a utopia.



Agricultura vertical com cariz comunitário


Os desenhos foram feitos, as maquetes montadas. “De todo o espectro de tecnologias, usámos a mais simples, a mais exequível”, diz Tiago. Na base, os arquitetos projetaram torres verticais rotativas e na parte superior torres de produção aeropónica – sem água – que permitiam expandir as culturas possíveis.


E há dois elementos que surgem nestes desenhos e maquetes: a estufa e o mercado. A produção e a celebração num só espaço – só assim poderia ser, crê o arquiteto, que ainda não se cruzou com nenhum projeto de agricultura vertical com uma dimensão comunitária.



Tiago Sá Gomes e o atelier Parto projetaram as torres com um espaço de convívio e de troca. Foto: Orlando Almeida

Com tudo isto em mente, imaginaram-se cenários de hortas comunitárias em:

  • Estabelecimento prisionais, conseguindo-se a dupla função de produção e de combate à estigmatização e de reinserção social;

  • No atual estacionamento de Campo de Ourique, onde a horta poderia desempenhar o papel de elemento agregador da freguesia;

  • No aterro do Porto de Lisboa, onde a horta poderia ter uma vocação mais industrial até mesmo para a restauração;

  • Hospitais, para servir a cantina e diversificar a alimentação, mas tendo também um propósito terapêutico quer para o staff quer para os pacientes;

  • No bairro das Caixas, em Alvalade, que já está a ser renovado com talhões de agricultura horizontal, mas onde se poderia sempre optar pela vertical;

  • No Braço de Prata, para se testar uma horta num “ambiente cultural propício”;

  • Numa escola, onde a produção poderia servir a cantina e ainda ter uma componente didática no âmbito de disciplinas como Ciências;


Ficar pelas ideias não é para a Upfarming e a utopia já começou a ganhar contornos de realidade. A empresa candidatou-se ao programa Bip/Zip com um projeto de vocação social na freguesia de Alvalade, para lá implementar uma horta comunitária de agricultura vertical – e ganhou. Para o ano haverá também hortas comunitárias na Escola Básica de Marvila, no âmbito do Orçamento Participativo, para mudar os hábitos alimentares dos mais novos.


Não é inocente que Alvalade tenha sido a freguesia escolhida, diz Tiago. “As pessoas vêm do Museu e fazem o percurso a pé, uma espécie de viagem no tempo, onde partem da utopia para a realidade”.


Com a parceria da Câmara Municipal de Lisboa, da freguesia de Alvalde, do Permalab da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (que deu todo o apoio técnico) e das associações de moradores do bairro das Murtas e de São João de Brito – a torre estará entre estes dois bairros -, o projeto já está a avançar. E tem duas vertentes: “integrar territórios ostracizados na cidade” mas também gerar um “modelo financeiramente sustentável”.


As culturas mais valiosas podem ser vendidas em restaurantes e mercearias da freguesia. O resto, pode ser consumido no âmbito de um projeto comunitário.



As hortas verticais projetadas pelo atelier Parto. Foto: Orlando Almeida

Por agora, a torre no Museu de Lisboa vai rodando ao seu ritmo, e as suas colheitas vão fazendo as delícias dos transeuntes. Cultivar, colher, envolver comunidades – alimentar os lisboetas num tempo em que, com a pandemia, a chamada cadeia de fornecimento mostrou debilidades.


Por ano, a Upfarming quer colher uma tonelada de verduras por cada torre construída, rumo a uma Lisboa mais saudável, sustentável e resiliente.


|Fonte: A Mensagem, 20 de Dezembro 2021

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