"Do prado ao prato." Os hábitos alimentares também podem ser sustentáveis

A alimentação é um dos "setores mais relevantes" quando falamos sobre alterações climáticas. Cerca de um terço das emissões mundiais de gases com efeito de estufa provém dos sistemas alimentares e, por isso, no Verdes Hábitos desta semana, Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, explica quais são as principais consequências da poluição no setor agroalimentar e dá sugestões para uma alimentação mais sustentável e amiga do ambiente.

TSF


Os hábitos alimentares também podem ser sustentáveis e ajudar na luta contra as alterações climáticas. A partir daquilo que ingerimos, muitas vezes podemos estar, inconscientemente, a contribuir para o aumento das emissões poluentes. Segundo um estudo da Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, cerca de um terço das emissões mundiais de gases com efeito de estufa provém dos sistemas alimentares. Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, explica que quando falamos de alterações climáticas e impactos ambientais "a alimentação é um dos setores mais relevantes".

"A nível mundial, a agricultura ocupa 40% da área terrestre, a produção de alimentos é responsável por cerca de 30% dos gases com efeito de estufa, mas no caso da água é bastante superior, é à volta de 70%. Este é também o caso em Portugal, onde o setor agrícola é o maior consumidor de água que temos no país. Pensando noutros impactos, a própria conversão dos ecossistemas naturais em campos agrícolas tem sido um dos maiores fatores da perda da biodiversidade. Também o próprio uso excessivo de fertilizantes é uma causa de criação de zonas mortas em lagos e zonas costeiras e quando saímos da parte terrestre e passamos para os oceanos, também sabemos que 60% dos stocks mundiais de pescado estão no limite da sua exploração e 30% estão em sobrepesca", afirma.

As emissões de gases com efeitos de estufa associados à agricultura, como o dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, são dos maiores problemas.

"O metano tem 56 vezes o potencial de aquecimento global do dióxido de carbono e o óxido nitroso tem 280 vezes o potencial de aquecimento global. São gases em relação aos quais devemos estar muito atentos, porque este efeito aumentado sobre as alterações climáticas. O metano é produzido durante a digestão do gado ruminante e na produção de arroz em campos inundados. O óxido nitroso está associado à aplicação de fertilizantes artificiais e o dióxido de carbono é libertado em várias áreas na agricultura, desde a transformação do solo até à queima para limpar as áreas agrícolas, bem como a própria utilização de maquinaria, produção de fertilizantes, transporte dos alimentos, processamento, armazenamento."

Relativamente aos alimentos, Susana Fonseca refere que "os alimentos à base de plantas são os que têm menos impactos adversos no ambiente e devem ser privilegiados".


Tipo de alimentação é prejudicial ao ambiente e saúde

O consumo de alimentos com grandes emissões poluentes tem consequências para o ambiente e a saúde humana. Susana Fonseca esclarece que "a pecuária, no seu conjunto, contribui apenas com 18% das calorias para a nossa alimentação, mas ocupa 83% das terras agrícolas, o que tem muito a ver com a produção das rações para alimentar os animais". Tendo em conta a água, Susana Fonseca adianta que "um quilo de vegetais, em média, gastará 322 litros de água e um quilo de carne de vaca gastará mais de 15 mil".

Em Portugal, a dieta alimentar "é desequilibrada, consumimos mais proteína animal do que aquela que deveríamos e isso tem um impacto significativo em termos da nossa pegada". "Estudos indicam que até 2050 vamos ter que alterar significativamente os nossos hábitos alimentares, reduzindo o consumo da carne vermelha, mas também aumentando muito o consumo dos alimentos saudáveis, como nozes, frutas, verduras, legumes, leguminosas", diz Susana Fonseca.

"Acredita-se que esta transformação na nossa alimentação pode resultar positivamente, com a redução de cerca de 10,8 a 11,6 milhões de mortes por ano", refere, acrescentando que a alimentação pode, de facto, causar vários impactos na nossa saúde, especialmente ao nível de doenças como o cancro ou a diabetes, que são causadas pelo "desequilíbrio no tipo de alimentos que escolhemos para a nossa doença alimentar".

"Se alterarmos para dietas mais saudáveis vamos estar a beneficiar o ambiente e a melhorar muito a nossa saúde", reconhece.


"Do prado ao prato." Quais são as metas de Bruxelas para uma alimentação mais sustentável?

Em 2020, a Comissão Europeia apresentou a estratégia "Do Prado ao Prato", que se integra no Pacto Ecológico Europeu. "É um documento muto relevante que demonstra uma visão bastante abrangente do que é trabalhar a questão alimentar. Não podemos trabalhar só a produção, temos de trabalhar também as dietas, prevenir o desperdício alimentar", considera Susana Fonseca.

"Esta estratégia procura trazer uma lufada de ar fresco e uma visão estrutural que visa uma transformação muito significativa da forma como produzimos e nos alimentamos", diz, sublinhando que "as metas de Bruxelas são "ambiciosas e positivas".

"Agora falta cumpri-las, porque no papel ficam bem, mas ficam muito melhor quando são implementadas." Bruxelas tem, por exemplo, como objetivo "reduzir 50% do uso e risco dos pesticidas"; "até 2030, reduzir 50% dos pesticidas mais perigosos"; "reduzir a poluição por excesso de nutrientes e trabalhar na fertilidade do solo, garantindo que não há perda de nutrientes"; "reduzir a resistência antimicrobiana" e "ter pelo menos 25% da área agrícola em modo de produção biológica".

As medidas propostas pela Comissão Europeia "tem muito a ver com a criação de um ambiente alimentar saudável, trabalhar as dietas, capacitar os consumidores a escolher alimentos saudáveis", apostando na rotulagem dos alimentos e na questão do desperdício alimentar.

Susana Fonseca destaca ainda a colaboração a nível internacional "com outros atores para tentar que estas práticas não se foquem apenas no espaço europeu".


O que fazer para uma alimentação mais sustentável?

Susana Fonseca admite que "ainda é preciso trabalhar bastante na promoção de práticas da agroecologia", bem como na questão da "balança alimentar", o que em Portugal "faz todo o sentido".

"Reduzir a proteína animal e voltarmos a uma alimentação influenciada pela ideia da dieta mediterrânica e reduzir o desperdício alimentar. Não há pior situação do que aquela de estarmos a produzir um alimento com grande impacto e depois acabe a ser desperdiçado. É importante ao longo de toda a cadeia produtiva reduzir o desperdício alimentar", assinala.

Os cidadãos também podem e devem adotar hábitos alimentares mais sustentáveis no dia a dia. O mais importante, segundo Susana Fonseca, é reduzir o consumo de proteína animal.

"Nem sempre é fácil, mas começam a aparecer cada vez mais alternativas, há imensas receitas online, alimentos que já estão preparados. É necessário que compreendam que este é um dos contributos mais significativos que podem dar", garante.

Susana Fonseca sugere ainda "produzir os seus próprios produtos, se tiverem essa opção, ou preferir produtos biológicos". "Consumir produtos da época, locais, pouco processados, dado que são sempre menos intensivos em termos de energia e mais em conta", acrescenta.

"Fazer uma lista quando vai às compras, controlar a data da validade dos produtos por causa do desperdício alimentar, fazer compostagem doméstica e devolver os nutrientes ao solo" são outras dicas que podem ser tidas em conta para uma alimentação mais sustentável.


|Fonte: TSF, 9 de Maio 2022

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