Dia da Sobrecarga da Terra foi mais cedo que nunca. O que fazer para atrasá-lo, nas cidades?

Atingiu-se o dia em que em que a humanidade consumiu tudo o que o planeta pode produzir num ano sem se esgotar. Comer menos carne ou fazer ruas sem carros pode começar a atrasá-lo, em busca da sustentabilidade.

A Mensagem


Hortas urbanas, como esta, no Bairro Padre Cruz, podem atrasr este dia. Foto: Rita Ansone

Chegou a 28 de julho. Mais cedo do que nunca. É o Dia da Sobrecarga da Terra, que marca a data em que a humanidade consumiu tudo o que planeta pode produzir num ano sem se esgotar. Agora, é como se vivessemos “a crédito”. Na verdade precisamos de 1,75 planetas para as necessidades da população.


Nos últimos 50 anos, o Dia da Sobrecarga tem-se adiantado, embora em 2020 tenha chegado mais tarde graças aos confinamentos provocados pela covid-19. Em 2021, voltámos atrás: o Dia da Sobrecarga chegou a 29 de julho, como em 2019.


As cidades têm um papel preponderante no gasto de recursos que implica a chegada (ou o atraso) deste dia. Afinal, a pegada ecológica é determinada pela agricultura, pelas pastagens e pelas áreas de pesca, como pelas áreas construídas e florestais necessárias para absorver o carbono emitido pela combustão dos combustíveis fósseis. Este último fator está bem ligado aos padrões de consumo nos países ricos, e, claro, às cidades.


Há muitas mudanças individuais que cada um pode fazer, mas há mudanças que têm de partir das autarquias. Em Lisboa e nas cidades portuguesas, os grandes problemas prendem-se com a mobilidade e a alimentação. Então, como atrasar, nas cidades, o Dia da Sobrecarga da Terra?



Mobilidade


Nas cidades portuguesas ainda somos muito dependentes do transporte individual, por isso a solução passa por recorrer mais ao transporte público, às deslocações a pé ou de bicicleta, sugere Maria Santos, da ZERO – Associação do Sistema Terrestre Sustentável.


Andar mais de bicicleta, a pé ou de transportes públicos faz parte da solução para o futuro. Foto: Orlando Almeida


E é mesmo assim. Segundo a organização que determina o dia em que esgotámos os recursos, a Earth Overshoot Day:


  • Se se substituísse um terço dos quilómetros percorridos pelos carros nas cidades por viagens em transportes públicos, de bicicleta ou a pé, será possível atrasar o Dia da Sobrecarga por 13 dias;

  • Se se reduzisse o limite máximo de velocidade automóvel nas cidades de 50 para 30 km/h e nas autoestradas de 120 para 110 km/h, seria possível atrasar 0,6 dias;

  • Se se mudasse o estacionamento nas cidades, tornando mais ruas pedestres e taxando o estacionamento: 10 dias;

  • Sistemas de ebikes: 4 dias;

  • Carsharing: 3 dias;

  • Taxas pela circulação de carro: 5 dias;

  • Mais infraestruturas para bicicletas: 9 dias;

  • “Superblocks” iguais aos de Barcelona (blocos urbanos onde o trânsito automóvel só é permitido nos arredores): 5 dias;



Andar mais de bicicleta, a pé ou de transportes públicos faz parte da solução para o futuro. Foto: Orlando Almeida



E é mesmo assim. Segundo a organização que determina o dia em que esgotámos os recursos, a Earth Overshoot Day:


  • Se se substituísse um terço dos quilómetros percorridos pelos carros nas cidades por viagens em transportes públicos, de bicicleta ou a pé, será possível atrasar o Dia da Sobrecarga por 13 dias;

  • Se se reduzisse o limite máximo de velocidade automóvel nas cidades de 50 para 30 km/h e nas autoestradas de 120 para 110 km/h, seria possível atrasar 0,6 dias;

  • Se se mudasse o estacionamento nas cidades, tornando mais ruas pedestres e taxando o estacionamento: 10 dias;

  • Sistemas de ebikes: 4 dias;

  • Carsharing: 3 dias;

  • Taxas pela circulação de carro: 5 dias;

  • Mais infraestruturas para bicicletas: 9 dias;

  • “Superblocks” iguais aos de Barcelona (blocos urbanos onde o trânsito automóvel só é permitido nos arredores): 5 dias;



Alimentação


Portugal é dos maiores consumidores de carne do mundo e o maior consumidor de peixe na Europa, pelo que a solução aqui passa pela redução do consumo de proteína animal.


A aposta em hortas urbanas, comunitárias e verticais por exemplo, permite limitar os cursos e “centralizar circuitos de produção de alimentos mas também verdejar as cidades”, explica Maria Santos.


Já os sistemas de compostagem são uma boa forma de se fazer frente ao desperdício alimentar, um outro problema. Para isso, Lisboa já começa a ter respostas. Mediante inscrição, o projeto Lisboa a Compostar oferece compostores domésticos aos munícipes, e já instalou compostores comunitários piloto na Ajuda, no Areeiro, em Campolide e nos Olivais.



A compostagem é uma forma de se combater o desperdício alimentar. Foto: Inês Leote



Segundo o Earth Overshoot Day,
  • Se se reduzisse a energia usada para cozinhar, recorrendo-se a frigoríficos mais pequenos, fornos mais pequenos, panelas de pressão, seria possível atrasar-se o Dia da Sobrecarga da Terra por 0,9 dias;

  • 50% de substituição de dieta de proteína animal por vegetariana: 7 dias;

  • 80% dos produtos alimentares comprados locais: 1,6 dias;

  • Reduzir em metade o desperdício alimentar: 13 dias;

  • Eliminar consumo de carne às segundas-feiras: 1,8 dias;

Repensar a cidade

Mas há também que repensar a cidade. Para Maria Santos, o plano da cidade dos 15 minutos (uma cidade em que todos os serviços estão à distância de um passeio de 15 minutos) é o ideal. “É um design que se começa a implementar e que permite não só que as pessoas andem mais seguras na rua, como incentiva o comércio local”, diz.


Repensar a cidade implica também repensar a habitação. É preciso uma intervenção estrutural nos nossos edifícios que continuam a consumir muita energia. Uma outra solução é a construção dos telhados verdes, que contêm o calor, retêm a água da chuva e melhoram a biodiversidade.


E, claro, há que tornar as cidades mais verdes, com mais árvores.



As árvores na cidade retêm o calor. Foto: Leonardo Rodrigues


Segundo o Overshoot Earth Day,


  • Se se adotasse o princípio da cidade dos 15 minutos nas áreas urbanas, seria possível atrasar-se o Dia da Sobrecarga por 11 dias;

  • Se se apostasse em arquitetura tradicional e indígena, em que as casas são desenhadas segundo a geografia e o clima local (casas construídas em climas quentes e secos focam-se na sombra enquanto casas construídas em climas frios são pensadas segundo a orientação solar), seria possível atrasar-se o Dia da Sobrecarga por 11 dias;

  • Mais árvores nas cidades: 0,9 dias;

  • Mais telhados verdes: 1,6 dias;

Para tudo isto, claro, é preciso adaptar as cidades à mudança. Pensar as cidades como espaços verdes, para as pessoas. Um caminho que já está a ser percorrido. “Se cidades como as alemãs e holandesas em 20, 30 anos mudaram o seu tecido urbano e promoveram cidades sustentadas em pessoas e não automóveis, isso quer dizer que é possível [fazê-lo também cá]”, conclui Maria Santos.




|Fonte: A Mensagem, 28 de Julho 2022

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