Brasileiro enche o prato e desperdiça comida, diz Guedes

Correio Braziliense (Brasil)

Ao comentar a cultura do desperdício no Brasil, ministro da Economia compara o país à Europa, onde a experiência de duas guerras teria ensinado os cidadãos a comer moderadamente. Seis em cada dez famílias enfrentam insegurança alimentar no Brasil



O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse, nesta quinta-feira (17/06), que o brasileiro “enche o prato” e deixa “uma sobra enorme” de comida nas refeições. A afirmação foi feita durante debate promovido pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), onde o ministro tratava sobre rastreabilidade, sanidade e desperdício de alimentos nas cadeias de produção e distribuição.


“O prato de um classe média europeu, que já enfrentou duas guerras mundiais, é relativamente pequeno e, aqui, nós fazemos almoço e deixamos uma sobra enorme”, afirmou Guedes.


Para o ministro, essa “cultura” do desperdício alimentar no país também está na produção e transporte dos alimentos, e na distribuição nos supermercados. Guedes também citou os restaurantes que, segundo ele, fazem “almoço” além do necessário, o que resulta na “refeição em excesso” do consumidor final de classe média.


“Todo alimento não utilizado pode alimentar pessoas fragilizadas, mendigos, desamparados... É muito melhor do que deixar estragar essa comida toda”, disse.


Não é a primeira vez que Paulo Guedes polemiza com suas declarações. Em abril deste ano, o ministro criticou o aumento da expectativa de vida do brasileiro. "Todo mundo quer viver 100 anos”, reclamou, na época.



"Cata xepa"


Para o economista Joilson Cabral, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), com o aumento da pobreza na pandemia, a proposta de Guedes seria, além de ilógica, ineficiente. “Não é uma fala verdadeira, do ponto de vista econômico. O ministro está propondo uma espécie de “cata xepa”, para que os mais pobres lidem com os “restos””, afirma o especialista.


De acordo com Cabral, o Governo precisa, na verdade, investir em políticas para reduzir o preço dos alimentos. “É preciso um estoque regulador para controlar a oscilação dos preços dos alimentos, além da redução de tributos, principalmente sob os alimentos da cesta básica”, explica.


Estudo de pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com a Universidade de Brasília (UnB), aponta que 6 em cada 10 lares brasileiros, que equivale a 125,6 milhões pessoas, vivem em situação de insegurança alimentar, em algum grau. No Nordeste, este número chega a 73,1%. Já em situação de fome, são 19 milhões de pessoas. Dessas, 6,7 milhões são crianças.



| Fonte: Correio Braziliense (Brasil), 17 Junho 2021

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