'Apesar de todos os constrangimentos não há qualquer risco de ruptura de produtos'

Gonçalo Lobo Xavier fala no aumento de preços que, no seu entender, não está diretamente ligado ao início da guerra na Ucrânia, uma vez que as subidas começaram antes.


Sol Sapo



Para o presidente da APED – Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição – é expectável que as subidas continuem e aponta para aumentos na ordem dos 30%. O responsável diz que «o Governo tomou algumas medidas em boa hora» mas, ainda assim, entende que são insuficientes. Gonçalo Lobo Xavier não está com grande expectativa em relação ao próximo Orçamento do Estado e justifica: «Não é por ter mudado de João Leão para Fernando Medina que vamos ter um Orçamento totalmente diferente daqueles que têm sido apresentados». Fala dos problemas de falta de mão-de-obra do setor e garante que «não podemos pensar no imediato que os refugiados vão ser a tábua de salvação no mercado de trabalho».



Contamos com uma seca, uma guerra e enfrentamos ainda uma pandemia. Que impactos é que estas situações têm no setor?


É preciso esclarecer algumas coisas relevantes. A APED representa 168 associados do retalho alimentar e não alimentar e, desses, 60 são do retalho alimentar. Não nos podemos esquecer que tudo o que está a acontecer na economia do ponto de vista macro tem um impacto em todo o retalho e estes aumentos de preços, embora tenham níveis de impacto diferentes – no alimentar ou no especializado – os consumidores vão sentir isso de alguma forma. Em segundo lugar, já disse isto recentemente, mas vou explicar melhor: é expectável para os próximos meses que os preços dos bens alimentares aumentem na ordem dos 30%. Isso é uma realidade que é verificada, neste momento, em Portugal mas em toda a Europa. Este aumento na ordem dos 30% são dados da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico], que se baseiam na análise macro e económica do espaço europeu mas também nas tendências dos últimos seis meses. Este crescimento dos preços não está diretamente ligado ao dia 24 de fevereiro, ao início da guerra na Ucrânia. É um movimento de crescimento de preços e dos fatores de produção que já se verifica nos últimos seis, sete meses, conjugado com a inflação – que naturalmente também está associada a este crescimento dos custos e está a provocar esta desorientação no mercado, com efeitos naturalmente nos preços e na bolsa dos consumidores.



Há sete meses que se assistia a este aumento de preços. Deve-se a quê? Na altura não havia guerra, nem a inflação estava nestes patamares...


Nos últimos sete meses já estávamos a assistir a crescimentos nos custos na área da energia, do gás ou combustíveis fósseis. De dezembro para cá houve um crescimento exponencial. Só em fevereiro é que o INE [Instituto Nacional de Estatística] vem identificar um valor de inflação quase na ordem dos 5%. Este aumento dos custos dos fatores de produção tem a energia à cabeça mas com a energia vem também a questão dos transportes das mercadorias, o aumento dos custos de produção na área alimentar, devido às rações e escassez de matérias primas que decorrem do próprio desajustamento do mercado na área dos cereais. Os cereais já estavam a aumentar há bastante tempo, mas com a perda do mercado ucraniano, houve aqui um incremento muito grande. Conclusão: os custos dos fatores de produção têm vindo a aumentar, a escassez de algumas matérias primas tem vindo a ser uma realidade, a questão da seca veio também complicar ainda mais a vida dos portugueses – particularmente da produção agrícola nacional – mas há uma coisa que posso garantir e posso continuar a afirmar: neste momento, apesar destes constrangimentos todos, não temos, no nosso horizonte, qualquer risco de ruptura de produtos. Não há ruptura de produtos quer na produção nacional quer mesmo nos produtos – porque Portugal não é autossuficiente em todas as áreas – de importação.



Mas se a situação se prolongar corremos esse risco?


Esperemos que o conflito termine o mais depressa possível e seria desajustado e imprudente da minha parte, enquanto diretor-geral da APED, fazer projeções a mais de dois, três meses. A verdade é que para os próximos dois, três meses não temos indicação por parte dos nossos retalhistas de sinais de preocupação. Mesmo o que se passou recentemente em Espanha com a greve dos motoristas e dos diversos boicotes, não tendo um efeito direto, provocaram alguns constrangimentos e atrasos na entrega de mercadorias nos nossos espaços de retalho alimentar, que foi rapidamente absorvido e reajustado. Mas houve um período, há cerca de duas semanas, de um movimento por parte de alguns consumidores no sentido de açambarcarem literalmente o óleo de girassol. Houve uma ligeira corrida a algumas lojas. Não que tivéssemos falta de stock, não que houvesse risco de ruptura mas, de repente, passámos, em algumas lojas, de vendas diárias de 100 litros para vendas diárias de 500 litros de óleo de girassol. Foi numa lógica de prevenção que alguns dos associados da APED decidiram limitar a venda por cliente para haver um acesso mais democrático deste produto que não é essencial a todos os portugueses.



E também subiram os preços...


O preço tem aumentado, mas não é de agora. Em dezembro, os nossos fornecedores apresentaram-nos as tabelas de preços para aplicar em janeiro e fevereiro e já tinham incrementos na ordem dos 10 ou 15%, ou seja, já estavam a fazer refletir no preço este incremento dos custos. Dir-me-ão que o preço já está a aumentar em muitos segmentos. É verdade. Este é o ajustamento que temos que fazer em face ao aumento do custo de produção. A produção vende mais caro à indústria, a indústria vende mais caro à distribuição. E por muito que façamos do ponto de vista da eficiência, da logística, para comprar bem e gerir bem os stocks sabemos que o retalho alimentar é essencialmente um negócio de eficiências. Não é um negócio de margens muito grandes. Está estudado, temos vários estudos do EuroCommerce, que indicam as margens médias no retalho alimentar são na ordem dos 2 ou 3%. Claro que para ter essa margem média há produtos que têm 15% e outros 1%, o que é um negócio de muito volume. E isso implica que todas as empresas, todos os retalhistas façam um esforço muito grande pela competitividade para apresentar o preço melhor, mais competitivo, ao cliente.



No caso do óleo de girassol, assistimos quase a uma duplicação de valor. Passou praticamente de 2 para 5 euros.


E porquê? O que aconteceu não foi porque houve uma escassez de produto. Claro que houve falta de produto porque a matéria-prima, o óleo de girassol, vinha na ordem dos 30, 40%, da Ucrânia e de repente ficámos sem essa fonte. É fácil perceber que todo o mercado europeu teve de se reajustar para ir à procura de outra fonte de matéria-prima. E onde é que elas estão? Na África do Sul, na América do Sul. A China tomou de imediato perto de 90% da produção de cereais da Argentina.



Agora estamos perante o açambarcamento do óleo, mas na pandemia vimos o mesmo no caso do papel higiénico. É uma questão cultural?


Não. Quer a questão do papel higiénico que começou na Austrália e se alastrou para o resto do mundo, quer a questão do óleo de girassol que, por acaso, começou em Espanha são fenómenos que estão relacionados com comportamentos irracionais e com os medos por parte do consumidor. Basta ver o que acontece quando surge a notícia de que vai haver um aumento de 30 cêntimos no gasóleo, em que no fim de semana anterior há uma quantidade de portugueses que passa horas numa bomba para abastecer. Mesmo que seja legítimo que o façam, é uma atitude de algum fenómeno de massas. Não sei se faria sentido do ponto de vista académico que se fizesse um estudo por parte de alunos de mestrado ou doutoramento sobre o que levou as pessoas a açambarcarem o papel higiénico. Mesmo que as pessoas digam que viram prateleiras vazias, nunca faltou papel higiénico, apesar de um aumento do consumo absolutamente inusitado. Conclusão: os meus colegas da reposição não estavam a conseguir repor ao ritmo que o consumo estava a ser feito. Há dias, João Vieira Lopes da CCP    [Confederação do Comércio e Serviços de Portugal  ] dizia: ‘Suspeito que vamos ter uma geração que quando morrer deixa uns bens aos filhos e uma palete de papel higiénico’. Neste momento, não há nenhuma perspetiva de ruptura de produtos, nem nos parece que vá acontecer algo semelhante nos próximos meses.



Admitiu que poderíamos recorrer a outros mercados para contornar a falta de matéria-prima, mas isso não se irá refletir nos custos por causa da distância?


Neste ajustamento entre ter deixado de haver matéria-prima e a indústria ter de ir procurar outras fontes de matéria-prima, com certeza bastante mais caras, os próprios custos de transportes ficaram muito mais caros. Trazer um contentor de produtos ou de matéria-prima da China, em pouco mais de um ano, passou de 1.500 dólares para 15 mil dólares. É evidente que o tráfego marítimo – e isso teve muito a ver com pandemia – tomou uma proporção em termos de custos que é impossível não transferir para o preço final. Se analisarmos toda a cadeia de valor vemos que está tudo a impactado. Daí a tendência é que haja um crescimento dos preços finais na ordem dos 30%. Não é hoje. Não é amanhã. É nos próximos dois, três meses que vamos a assistir a um incremento do custo dos produtos alimentares fruto da conjugação de inflação, de crescimento dos custos dos fatores de produção e, naturalmente, os próprios fornecedores tiveram que se acomodar a estas realidades.


A par dos contentores, o preço dos combustíveis não ajuda...


Aparentemente o Governo tomou algumas medidas em boa hora, mas do nosso ponto de vista são insuficientes. Claramente a questão de baixar o IVA dos combustíveis é uma matéria essencial para a competitividade das nossas empresas e da nossa economia. Já alguns Estados-membros na Europa o fizeram, não esperaram pela autorização da União Europeia. Parece-me que a União Europeia até tem reagido com bastante celeridade às dificuldades destas crises nos últimos tempos. Verificamos isso na política de coesão, aliás há um dossiê que é gerido pela nossa comissária Elisa Ferreira, em que foram desbloqueadas verbas importantes e foram alargados os prazos de execução dos vários financiamentos que vão ter impacto para mitigar as dificuldades das empresas. O caso dos transportes é paradigmático. As empresas de transporte – em Portugal há algumas com dimensão considerável – na sua maior parte são relativamente pequenas, com frotas que são sustentadas nos vários contratos que vão celebrando com empresas do retalho mas também com outras empresas da indústria, etc. É fácil perceber que numa frota de seis, sete camiões, uma flutuação de preços semanal com 20 ou 30 cêntimos para cima e para baixo, num depósito de mil litros são 300 euros. Ora, 300 euros, em seis ou sete camiões, é evidente que vai ser muito difícil para aquela empresa de transportes que já firmou um contrato a mais de um mês com uma empresa para fornecer os seus serviços, se em duas ou três semanas tem um impacto de 300 ou 400 euros por camião vai ficar sem liquidez e não vai conseguir transferir para o seu cliente este aumento repentino de custo. Isto vai deixar as empresas numa situação de liquidez absolutamente dramática. Espero que estas medidas que o Governo tem vindo a anunciar cheguem depressa ao bolso das empresas de transporte para as ajudar com a questão da liquidez. Ninguém consegue gerir e prestar serviços com base numa tabela de preços que foi feita há um mês com uma realidade completamente diferente.



Estamos perante uma asfixia financeira nas empresas?


Para empresas de transporte relativamente pequenas estamos claramente com um problema difícil e a escalada dos custos não vem ajudar. Tudo o que se possa fazer para ajudar estas empresas a sustentarem os seus negócios e a dar-lhes oxigénio para poderem continuar a trabalhar é essencial para toda a gente. Tem sido um desafio do ponto de vista da logística e dos transportes absolutamente hercúleo. E não vamos parar por aqui. Sou um otimista realista. Quero acreditar que rapidamente estas medidas vão ajudar as empresas de transporte e, consequentemente, também as várias medidas que foram anunciadas para ajudar a agricultura nacional, nomeadamente nas áreas da energia e do financiamento são essenciais para continuarmos a ter uma cadeia de distribuição bem organizada. Já toda a gente se esqueceu dos 26 meses de pandemia que tivemos. E tivemos 26 meses de pandemia em que houve uma valorização da produção nacional e uma capacidade da resistência da produção nacional – agrícola – que veio dar muito boa conta de si e veio permitir que, do ponto de vista da distribuição nunca faltassem produtos nas nossas lojas, os chamados bens essenciais. Por isso dizíamos que continuávamos a alimentar Portugal. Agora isto só se faz se estivermos todos a trabalhar numa cadeia de distribuição equilibrada.


Fala-se cada vez mais que cada país europeu deveria apostar num tipo de produção para tentar evitar esta dependência. Mas os resultados não são visíveis de imediato...


Naturalmente. Estávamos com índice de crescimento muito grandes na valorização da produção nacional quer para o mercado interno quer para exportação. A agricultura teve, nos dois últimos anos, resultados extraordinários. E isso valida precisamente isso: é preciso apostar na produção nacional. Temos dito também – e verificámos isso nas nossas lojas e no comportamento dos consumidores – que a pandemia veio, sobretudo nos primeiros lockdowns, trazer um sentimento de valorização do que era português junto do consumidor que foi muito apreciado. É evidente também que não somos autossuficientes em todas as áreas. Somos até bastante competitivos nos hortofrutícolas e noutras áreas mas é impossível. Não temos mercado de produção no que diz respeito às aves, à carne de porco, de vaca. Temos que ter alguns equilíbrios e necessidades de importação. Mas uma coisa digo, voltando à questão macro, tudo isto deve ser visto como uma oportunidade para a Europa repensar rapidamente a sua política de valorização interna industrial. Tenho dado este exemplo várias vezes: quando a pandemia apareceu, verificou-se que 98% ou 99% das máscaras cirúrgicas eram feitas na Ásia. E grande parte delas na China. Esta dependência de algumas cadeias de produção de outras geografias deixou a Europa numa posição muito delicada. Já era uma oportunidade com a pandemia mas todos estes acontecimentos estão, de alguma maneira, não a pôr em causa a globalização, mas pelo menos a obrigar-nos a pensar e obrigar-nos a valorizar a produção nacional e a capacidade produtiva do nosso país e, no limite, do espaço europeu. O que me leva a dizer que, neste desafio, há áreas – não apenas na área alimentar – mas da indústria portuguesa que são altamente competitivas e podem crescer muitíssimo como, por exemplo, a área do têxtil e da moda e, sem dúvida, o exemplo da área da metalomecânica. Há coisas que, pasme-se, neste momento já quase só se fazem em Portugal. E isso tem a ver com anos e anos de política de deslocalização da produção para outras geografias e agora estamos a ver que nem sempre foi feito da melhor maneira e com impacto na vida das pessoas. O caso da indústria automóvel é paradigmático.



Mas temos indústria automóvel. Podia apostar-se mais nessa área?


Já estou a entrar numa área do meu passado profissional que não nego e gosto muito. Toda a Europa está a enfrentar uma escassez de matéria-prima, uma escassez de recursos, incluindo humanos, para trabalhar. Esta deslocalização e estas opções macro de muitos países esvaziaram muitas áreas profissionais e, voltando ao nosso tema de hoje, o retalho também tem grande dificuldade. Hoje em dia continua a ser difícil recrutar para as nossas áreas. Mesmo com a atratividade do setor e com salários bastante mais robustos do que tínhamos há uns anos. O mesmo se aplica a outras áreas da indústria portuguesa. Temos de repensar toda a área de formação, de competências e do sistema de educação para uma nova economia que seja mais sustentável, não apenas do ponto de vista ambiental mas também do ponto de vista das operações que é preciso ter e dos produtos que é preciso produzir em Portugal e na Europa.



Falava sobre a mão-de-obra. As grandes superfícies são conhecidas por pagar ordenados acima do salário mínimo nacional.


Estamos neste momento com propostas junto dos sindicatos para um contrato coletivo que está bem acima do salário mínimo nacional. Estamos em negociações.



Qual é o salário médio?


A última análise que fizemos do salário médio para o setor estava na ordem dos 980 euros. Estamos a falar de 130 mil colaboradores, sendo que 90 mil são da área alimentar e os restantes 40 mil são do retalho especializado. E o salário médio concorre com o salário médio nacional.

E mesmo assim sentem falta de mão de obra?


Temos dificuldade em recrutar para algumas áreas específicas, sobretudo as que são bastante técnicas, que exigem algum conhecimento e formação.



O elevado número de refugiados que virá para Portugal poderão vir a colmatar estas falhas?


Quero ser cauteloso e realista. Temos sido muito solicitados para ajudar e temos feito na medida das nossas possibilidades. Olhamos para os refugiados como pessoas com necessidades básicas, desde logo um teto, alimentação e paz. Naturalmente que estamos focados em ajudar as diversas entidades que nos têm contactado. Numa segunda fase, depois de as terem acalmado e de se ambientarem, seria ingénuo da minha parte dizer que o setor não está interessado em ucranianos que normalmente são bastante qualificados. Tudo indica que estes refugiados que agora se estão a instalar em Portugal e que deverão ser bem acolhidos pela população portuguesa não devem ser muito diferentes do ponto de vista humano, de qualidades técnicas e de formação face aos que vieram há 20 anos, mas com outro enquadramento. As empresas portuguesas podem integrá-los com um ganho de causa não só para as empresas, mas também para a sociedade, para a economia e sobretudo para eles próprios. No entanto, numa primeira fase, o importante é garantir que sejam bem integrados na sociedade portuguesa e só depois é que podemos pensar no seu recrutamento. Não podemos pensar no imediato que os refugiados vão ser a tábua de salvação no mercado de trabalho. Não podemos olhar para estes recursos como algo que vai resolver todos os problemas e dificuldades que o mercado de trabalho português tem.


Além dos produtos de primeira necessidade há outros que vão aumentar. As bebidas alcoólicas, por exemplo. Podemos assistir a mais aumentos?


Diríamos que sim. Assistimos durante os meses de janeiro e de fevereiro a aumentos de algumas categorias de produtos na ordem dos 10/15%. Que categorias eram essas? Tudo o que estava ligado a cereais, farinhas, pão, massas e que já estavam a refletir todos estes aumentos de custos de produção. A cerveja tem cereais e o aumento será por aí, aliado ao aumento do custo de produção na área da energia. Na área do vinho o que temos sentido é o aumento dos sulfatos, pesticidas – todos esses componentes que são fundamentais para o tratamento da vinha e que terminam numa outra coisa essencial que é o vidro. Neste momento produzir vidro tem um custo enorme porque, tal como na cerâmica, os custos de energia, do gás – em que o gás tem aumentado 400/500% – também na produção do vidro estamos a assistir a uma grande desafio para as empresas portuguesas. As pessoas esquecem-se muitas vezes que o problema não é só o produto em si é também a própria embalagem que está a aumentar o preço exponencialmente.



No entanto, o rendimento dos portugueses não acompanha este aumento de preços. É previsível que o consumo desça?


Parece-me que não é preciso ser um mago da macroeconomia para perceber que vai haver alguma retração no consumo e que decorre destes fatores: inflação e aumento dos preços enquanto os rendimentos dos portugueses mantém-se na mesma. Consumir menos vai ter reflexos na economia mas temos uma oportunidade para consumir melhor. Vivemos até agora num clima de uma certa abundância de produtos. É evidente que temos franjas da sociedade que passa mal, mas mesmo essas, felizmente tem tido mecanismos de apoio. O mercado de retalho apoia mais de mil IPSS em todo o país e que atuam sobre as famílias mais carenciadas e as zonas com maior falta de recursos. Há uma clara oportunidade de repensarmos o consumo e sobretudo sermos mais cuidadosos. Por exemplo, o desperdício alimentar continua a ser um flagelo e tem de ser combatido. As famílias são responsáveis por 45% do desperdício alimentar, em toda a cadeia. E porquê? Muitas vezes não sabemos ler os rótulos e deitamos fora produtos que ainda estão em condições de serem consumidos, muitas vezes somos pouco cuidadosos na gestão dos restos dos alimentos e deixamos os alimentos a estragaram-se no frigorifico. Não temos atenção como fazemos as compras e como gerimos os recursos em casa e, como tal, há uma perda muito grande na cadeia. Está na altura de sermos mais conscienciosos e fazermos aquilo que os nossos pais e avós faziam com os recursos, em que tinham uma lógica de aproveitamento e não estarmos apenas preocupados em deitar uma garrafa fora. Algo em que também o retalho tem estado a trabalhar é para que as pessoas entreguem as suas garrafas, uma vez que o plástico não vai acabar e é preciso ter mecanismos e boas práticas para não ir parar aos fundos dos mares.



Nos primeiros dois meses houve uma recolha de cerca de 500 mil embalagens. Era o número que estava à espera?


Estamos a gerir um projeto-piloto com os nossos parceiros da APIAM e da PROBEB, que dura desde março de 2020 e tem sido renovado com o apoio do Fundo Ambiental. E tem dado pistas muito interessantes nestas 23 máquinas espalhadas pelo país de recolha de embalagens, em que temos ultrapassado todas as metas e objetivos que tínhamos. Hoje por cada embalagem devolvida é atribuído um ponto que entra para uma contagem que pode ao fim de um conjunto de pontos ser descontado por bicicletas elétricas, trotinetes elétricas ou por telemóveis recondicionados. Vimos que os cidadãos aderem a este tipo de iniciativas e admito que estes incentivos e prémios ajudam.



Admitiu que poderemos assistir a uma quebra do consumo. Acha que do lado Governo deviam ser tomadas outras medidas, nomeadamente a redução da carga fiscal em determinados produtos?


A carga fiscal penaliza fortemente a classe média e é o instrumento mais fácil de usar. É evidente que o Governo tem evitado muito utilizar este instrumento da redução da carga fiscal porque também está capturado por uma lógica de recolha de receitas fiscais e não está a ter a criatividade necessária para ir buscar outras fontes de rendimento para compor o Orçamento da República. Mas também é evidente que se não tomarem medidas rapidamente a situação tenderá a agravar-se com consequências dramáticas para a população, para as empresas e para a sociedade em geral. Vemos com bons olhos medidas que estão a ser tomadas em outros Estados-membros da União Europeia, onde Espanha é um exemplo porque é muito próximo de nós e tem uma realidade relativamente parecida com a portuguesa, mas também o que se faz na Polónia ou na Hungria. São exemplos de criatividade fiscal e que podem ser utilizados com as devidas proporções das economias e com efeitos bastante mais benéficos. Não pode é haver esta hesitação porque a pior coisa que há para a economia e para o desenvolvimento de um país é a incerteza. Temos dito sempre que a incerteza do ponto de vista fiscal é dramática para a tomada de decisões das empresas no que diz respeito ao investimento e consequentemente tem impacto no rendimento das pessoas que vão sentindo essa incerteza.



Geralmente os últimos Orçamentos de Estado têm vindo a penalizar os impostos indiretos, como é o caso das bebidas açucaradas, batatas fritas, etc. O que espera do próximo?


Para 2022 não devemos esperar grandes alterações. Não é por ter mudado de João Leão para Fernando Medina que vamos ter um Orçamento totalmente diferente daqueles que têm sido apresentados. Compreendo até certo ponto, na medida em que o país tem algumas condicionantes que não se alteraram, mas na verdade, do ponto de vista do Orçamento do Estado, não estamos com grande esperança que Fernando Medina tire um coelho da cartola. Parece-nos, a julgar por todos os indicadores de que temos ouvido falar, no que diz respeito ao PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] e à gestão dos fundos europeus, perto de 70% do que vai ser investido vai ser no Estado e nas instituições do Estado, na sua suposta modernização ou para sustentar o Estado. Só o restante é que irá ser canalizado para as empresas, apesar de serem elas quem cria valor, quem pode criar riqueza, quem pode criar mais emprego e quem pode gerar mais receita fiscal para o Estado. A julgar pelo que tem sido feito até agora não augura nada de bom. Era importante inverter esta tendência e aplicar os fundos europeus até 2024, porque a Comissão Europeia deu mais um ano para se poderem esgotar de forma mais eficiente as verbas existentes e aí há espaço de melhoria que não passando diretamente pelo Orçamento do Estado passa por uma execução que vai ter efeitos no Orçamento do Estado e na gestão das contas públicas.



Acha que a prioridade deveriam ser as empresas?


Claramente tem de haver um maior equilíbrio, não pode continuar a haver esta desproporcionalidade de investimento num Estado que ser quer mais ágil, mais digital, mais sustentável e todos os investimentos que fazem não estão a resultar numa eficiência do Estado. O que vemos é um aumento de recrutamento de funcionários para o Estado, sem os consequentes efeitos na melhoria dos serviços aos cidadãos e até da melhor performance do próprio Estado no que diz respeito a uma área obvia que é a digitalização e a sustentabilidade. Não é possível ao Estado ser mais digital e continuar a recrutar pessoas, o que o Estado tem de fazer é reconverter as pessoas. Não estou a defender despedimentos, pelo contrário, estou a defender é que se o Estado quer ser mais digital então temos muita dificuldade em perceber como é que continua a recrutar tanta gente para ter áreas digitais. É incompreensível.



O que acha do novo Governo e do ministro escolhido para tutelar o setor?


É muito cedo para fazer um comentário e a APED não se tem metido em política, isso já ultrapassa as competências de uma associação como a nossa. Desejamos as maiores felicidades e estamos muito expectantes sobretudo na nossa área. Tivemos um secretário de Estado do Comércio e da Defesa do Consumidor, João Torres, que fez um mandato absolutamente notável do ponto de vista da relação com a cadeia de valor e da relação com as empresas e com as associações, em que foi muito cuidadoso e defensor de todo este ecossistema. Embora tenha muito apreço pela nova secretária de Estado, Rita Marques, vai acumular essa pasta com o turismo. Um secretário de Estado do Turismo e de Comércio... Podemos dizer que os dois andam de mão dada, mas parece-me que será muito difícil esse trabalho. Espera-se uma tarefa complicada porque mesmo sendo áreas que estão ligadas têm dificuldades muito próprias e que podem ser difíceis de gerir e de compatibilizar. Espero estar enganado e que seja uma excelente ideia.



A Autoridade da Concorrência tem acusado várias cadeias de concertação de preços...


Não comentamos casos específicos da Autoridade da Concorrência. Há canais próprios e os retalhistas em causa têm respondido nos lugares próprios e têm contestado. A única coisa que poderia dizer enquanto diretor-geral da APED é que temos muita dificuldade em perceber este tipo de comportamento por parte da Autoridade da Concorrência, num mercado que é altamente concorrencial e que continua a aumentar o número de empresas e de lojas, o que é demonstrativo da atratividade de um setor como este. A própria acusação é em si mesmo uma contradição dos termos porque o setor é concorrencial e há constantemente empresas a querer entrar em Portugal. É um mercado que não está saturado e as empresas num mercado concorrencial e dinâmico iriam concertar preços? No mínimo dá que pensar e faz muito pouco sentido.



Não é caso único e há mais alvos, como a banca...


A Autoridade da Concorrência está a fazer o seu papel e estamos expectantes em relação às decisões dos tribunais. Mas custa a entender como é que num mercado tão concorrencial os players se iam perder em histórias mal contadas e que o próprio desenvolvimento do mercado da economia contraria.



Outra polémica diz respeito à aplicação da taxa de segurança alimentar (TSAM). Este ano a taxa mantém-se nos sete euros por metro quadrado.


Foi algo que nos foi imposto e continuamos com muita dificuldade em perceber. Há retalhistas que optaram por não pagar e contestaram.




Desde 2012?


Tenho ideia que há pelo menos um retalhista que entendeu que não devia pagar. Outros pagaram ao princípio e decidiram contestar mais tarde. Enquanto APED temos questionado a existência da TSAM e sobretudo temos questionado o destino desta taxa e do valor que é cobrado, assim como se está a cumprir aquilo para que supostamente foi criada. Esta taxa tem previsto a arrecadação de receita para fazer face a uma matéria muito específica e que está relacionada com o bem estar animal, com o recondicionamento e tratamento de resíduos associados à segurança alimentar e com efeitos muito específicos. Nunca soubemos se o destino para qual a TSAM foi criada está a ser cumprido. E nunca ninguém, quer no Ministério da Agricultura, quer no Ministério da Economia, nos veio explicar se isto estava a acontecer. É algo que é demasiado nebuloso, mas que o setor tem acatado e há tribunais para julgar a validade e a constitucionalidade desta taxa.

Longe vai a polémica dos sacos pagos...

O retalho, quer seja alimentar, quer seja especializado, tem uma consciencialização sobre as questões da sustentabilidade acima da média.


Mas permitiu poupar...


Acho que há um equilíbrio entre o que se poupou e o que se investiu, com um beneficio claro para o consumidor. O consumidor o que quer? Quer racionalidade económica quando compra um produto, mas também quer responsabilidade. Se me está a dizer que poupámos em sacos de plásticos também posso dizer que investimos muito em alternativas para cumprir legislação. Somos diariamente impactados com legislação europeia e nacional, o que obriga a fazer investimentos muito grandes. Lembro que durante a pandemia foi dito que muitos ficaram em casa e houve um aumento das vendas do retalho alimentar, mas a par disso houve um enorme investimento em segurança, em álcool gel, em máscaras, em acrílicos, etc. Isto é tudo uma gestão de equilíbrios e não se pode olhar para as questões apenas de um lado. Se quiser, houve de facto uma poupança na gestão das embalagens mas também houve um investimento enorme na criação de alternativas. É claro que o plástico não vai acabar, o que temos é de ter uma utilização racional do plástico. Por exemplo, acaba-se com o plástico de utilização única, como as palhinhas, tudo isso é muito razoável, mas temos que de encontrar um equilíbrio entre soluções economicamente viáveis, que do ponto de vista da higiene e da segurança alimentar sejam irrepreensíveis. Isso implica também que o retalhista vá à procura de outras soluções.


|Fonte: Sol Sapo, 4 de Abril 2022

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